a pergunta que conta
Sou um tolo. Sei que o sou desde sempre. Desde miúdo. Confirmei-o com o cavaleiro da triste figura, que tanto me seduziu e marcou, reconfirmei-o com o major Alvega, reafirmei-o quando me deixei inspirar pelo John Keating e passei a tentar inspirar outros a subir para cima das mesas, a ver e a viver o inusitado em si, sem medo. Sou um tolo. Não porque me deixo inspirar, porque me deixo seduzir por personagens cavaleirescas e românticas e, sobretudo, caídas e reerguidas, mas porque ando ingloriamente à procura de quem não sou, do que não sou, da inteireza que não tenho.
Deveria tatuar, não na testa, porque mão o veria, mas nas mãos ou nos braços, de forma a que me recordasse, todas as manhãs e todos os dias, que, verdadeiramente, não conhecemos ninguém. Na verdade, a fundo, em todas as vertentes, em todas as faces do poliedro que cada um é, não conhecemos ninguém. Limitamo-nos a fazer juízos rápidos, a engavetar as pessoas, a catalogá-las, a emprateleirá-las, mas não as conhecemos. Porque elas não são uma. Não são apenas a faceta que vemos. Não são apenas quem se nos revelam. Não são apenas para nós. São para elas, antes de tudo, para as suas dúvidas, as suas incertezas, as suas próprias questões. E muitas vezes, entre o que querem ser, o que procuram ser, e o que conseguem ser, variam muito o que são, consoante quem têm diante de si. E as circunstâncias.
Nós não agimos da mesma forma independentemente de quem temos diante de nós. Não falamos da mesma maneira para os filhos e para os pais; para um amigo de longa data e para um conhecido; quando estamos dentro da Igreja e quando estamos num café a ver futebol. Ahhh mas somos a mesma pessoa. Somos? Para quem? Nem sequer o somos para nós próprios, se nos olharmos com verdade. Permitimo-nos palavras, e gestos, e atitudes diferentes em função das nossas circunstâncias. Mais: com o tempo, escolhemos lugares onde nos sentimos naturalmente mais perto da pessoa que queremos ser, ou que entendemos que devemos ser. Mas não somos sempre a mesma pessoa. E nem sequer me refiro à evolução que a idade nos provoca, que, acredito, tende a fazer-nos mais sábios. Refiro-me mesmo às pequenas inúmeras roupagens com que nos vestimos ao longo de um só dia. Quando acordamos, enquanto nos preparamos, preparamos os filhos, no trânsito, nos corredores, nos intervalos, no almoço, no regresso a casa, quando estamos sozinhos, debaixo do chuveiro, naqueles segundos, breves mas muito reveladores, semi-inconscientes, mesmo antes de adormecer. Alguém consegue afirmar, com verdade, que é sempre a mesma pessoa, que revela sempre a mesma pessoa, que tem sempre as mesmas palavras, as mesmas atitudes, a mesma postura? Que é sempre o mesmo, desde que acordou até que se deitou, todos os dias do ano?
Quando muito, temos tendências. Quando muito, se colocássemos quem fomos conseguindo ser num gráfico, em todos os dias, em cada um dos momentos de um dia, veríamos uma tendência. E o melhor que conseguimos ser é essa tendência. Mas se fizéssemos esse gráfico, não com o nosso olhar sobre nós próprios, sempre enganador, mas com aquele que os outros nos dedicam, descobriríamos nele alguma tendência comum? Algum ponto de encontro? E se, por qualquer magia da IA, conseguíssemos sobrepor a soma desses olhares, com o do nosso próprio olhar, seriam coincidentes entre si? E que importância teria isso?
Há uns anos largos fui com uma das minhas filhas a Taizé. E não a reconheci lá. Vi uma rapariga, na altura adolescente, proativa, desenrascada, dinâmica, enérgica, organizada, o que contrastava fortemente com a minha filha que passava a vida a ver televisão sentada no sofá. Recordei-me disso ontem, na missa de sétimo dia do meu pai. Era um homem bom. O que ouvi dizer dele não eram meras palavras de circunstância. Era, efetivamente, um homem bom, dedicado, meigo, disponível, atento, sábio até, muito querido por todos.
Uma das coisas que sempre me inquietou é justamente essa: como irei ser recordado na minha missa de sétimo dia? O que dirão de mim? O que pensarão de mim? O que recordarão de mim? Quem, de entre os imensos de mim, recordarão? Esta não é, nunca foi, para mim, uma questão pequena. Sempre me motivou a procura do equilíbrio, um olhar atento, uma permanente - e esgotante, diga-se - aferição, mas também constante superação. E tudo isto veio de novo à baila com a morte do meu pai.
Não somos um só. Ninguém é apenas um só. Algures entre os muitos que somos, que vamos sendo, existirá aquele que se encontrará, face a face, com o Pai. Algures entre os imensos que eu sou está o meu desejo de ser, permanentemente contrariado pela minha realidade. É uma batalha inglória, porque estou sempre aquém, porque me sinto sempre perdedor, porque sou, efetivamente, sempre perdedor. Vou percebendo que a pergunta está mal colocada. Que a pergunta não deve ser “quem sou eu”. Nem “quem sou eu para o Pai”, porque Ele conhece-me de ginjeira. Mas a pergunta certa a colocar-me é mesmo: “quem sou eu para os outros”? Serei muitos, e muito diferentes, provavelmente. Mas, no final, talvez seja mesmo isso a única resposta que conta.

