A Semana
Chegou A Semana. Diziam os meus filhos, à mesa, que não gostam de nenhuma das celebrações desta semana. “Não te preocupes, hás de gostar” respondi. Acredito nisso. Em ambas as coisas: que ainda não gostem, e que hão de gostar.
Que não gostem, é absolutamente normal. Quem é que, na sua idade, gosta do escuro, da dor, do sofrimento? Espero que não os meus filhos, que isso seria sinal de que alguma coisa está errada na vida deles. Gostam do sol, da festa, do riso e da alegria. Ainda bem. Hão ter tempo para a dor dos ossos. E quando chegar esse tempo – que chega sempre – espero que continuem suficientemente identificados com a Igreja para perceberem que não têm de suportar a dor sozinhos, que a comunidade de fé que vive o Cristo que nos habita e que connosco caminha dará sentido ao seu sofrimento e permitirá o reconhecimento de como é importante caminharmos juntos. Sobretudo na dor.
No entanto, para mim, esta é A Semana. Não o é há muito tempo. Participava nas celebrações quase como uma obrigação, como algo que se deve fazer, ainda que não se queira. E como as cerimónias são todos os dias e todas longas e escuras, o tempo nunca mais passava. Já para não falar no aspeto cénico, que não entendia – ainda hoje tenho muita dificuldade em entender, ao ponto de achar que apenas atrapalha – como o guarda-chuva e a capa que o sacerdote usa ao transladar o Corpo do altar para o fundo da Igreja, que me parece sempre escusado. Sim, são sinais, e vivemos de sinais, mas na verdade tenho uma série de dificuldades com a liturgia mais fechada, que não me diz nada e é, para mim, completamente anacrónica. Agora que estou a revisitar o Antigo Testamento com o Podcast Mais365 até a entendo melhor, mas continua a não fazer grande sentido e, sobretudo, a ser perfeitamente dispensável na lógica do Amor do Pai, que é para mim muito mais significativa. E efetiva.
Mas desconto tudo isso quando mergulho nas celebrações da Semana Santa. Coloco a minha vida na vida do Cristo que acompanho e que me acompanha, revejo a minha vida na Sua vida, a minha dor na Sua dor, desejo a capacidade de me entregar daquela maneira, total, até ao fim, sem medo e inteiramente confiante no amor do Pai. Não procuro a dor, como Jesus não a procurou, mas sei que por vezes cedo à tentação de afastar o cálice e concluir que é melhor passar sem ele. Nunca é. Mas é-me sempre difícil resistir. E emociono-me muitas vezes ao longo das celebrações justamente porque é a minha vida que vai acontecendo no altar. São os meus pés e a minha alma que são lavados, sou eu que estou à mesa com os que me amam, sou eu que morro e sou ressuscitado precisamente pelos que me amam e me voltam a dar vida.
E é também por isso que entendo que possa ser difícil à malta nova mergulhar na liturgia da Semana Santa. Ainda não estão na fase da vida que lhes permita identificarem-se com Cristo na dor e no sofrimento porque, Graças a Deus, a maior parte deles ainda não viveu tamanha dor e sofrimento e o que fica é pouco mais que o aspeto cénico. Não é ainda a sua vida que está junto do altar. Há de ser, mas ainda não. Por isso para já, para a malta nova, Deus é fundamentalmente Amor, no que o Amor tem de partilha, de convívio, de alegria, de descoberta conjunta da felicidade que é sermos e fazermos coisas juntos. É um Deus que se experimenta, que se sente, à flor da pele, numa imensidão que tantas vezes extasia. Esse é o Deus da sua experiência que, embora seja racionalmente compatível com o do outro lado escuro e triste da vida, não foi ainda experimentado, vivido, e está desejavelmente tão longe quanto a sua própria experiência da dor. Preferem a alegria da ressurreição, o Domingo de Páscoa. Por isso tantos participam, se sorriso aberto, no Compasso da Paróquia, que leva o Cristo Ressuscitado de casa em casa, numa alegria algazarrante que tem tanto de inocência como de genuíno. Em termos litúrgicos, não participaram na Paixão e na morte, mas anunciam a Vida daquele que está entre nós. Ainda bem. Haja quem o faça assim, com toda a alegria. Porque demasiadas vezes muitos de nós ficamos pela Paixão, com cara de missa de sétimo dia. E precisamos de quem nos recorde que, afinal, Cristo ressuscitou. E nós com Ele.
Boa Páscoa.

