Embevecido, escuto a gargalhada do Vasco, o nosso neto de 9 meses, quando o nosso neto Chico, de 3 anos, brinca com ele, e desejo que, de alguma maneira, guardem em si as memórias felizes destes dias de férias. Embevecido, vejo os nossos filhos, tão diferentes, e as pessoas que escolheram, tão diferentes, e percebo como bastam alguns dias juntos para perceber como o tempo vai definindo caminhos igualmente diferentes para cada um deles.
Penso, digo e escrevo muitas vezes que cada pessoa tem o direito e o dever de escolher o melhor caminho para si. Aquele que melhor se vai encaixando à medida que vai caminhando, de acordo com as suas circunstâncias, de acordo com o seu olhar sobre a vida, com a meta que vai redefinindo a cada etapa alcançada, necessariamente atento aos sinais do corpo e, à medida que vai valorizando a sabedoria, da alma. A escolha do peso das variáveis que cada um considera nesta equação vai definindo a pessoa que queremos ser: mais ou menos racionais, mais ou menos atentas aos outros, mais ou menos ligadas ao transcendente, mais ou menos ligadas ao futuro. No meio de todas estas escolhas que o caminho vai impondo à medida que se caminha, há premissas que considero absolutamente fundamentais. A primeira de todas, porque acredito que fundamenta todas as outras - é que ninguém caminha sozinho. Não há volta a dar: há outras pessoas a caminho, no meu caminho, no seu caminho, e isso tem necessariamente, inapelavelmente, implicações efectivas nas escolhas que vou fazendo. Esta é, acredito, a premissa primeira, a mais fundamental, a mais definidora, e por isso a repito: eu não estou, eu não sou, sozinho.
E a partir daqui tudo muda: a descoberta de mim e do meu lugar e do meu caminho e da minha alteridade. E a descoberta do outro e do seu lugar e do seu caminho e da sua alteridade. A descoberta da possibilidade de escolha entre o eu confortável mas limitado e o nós desafiante e melhorado. Descubro a necessidade do cuidado, da atenção ao que aprofunda a fragilidade ou multiplica a capacidade, e descubro que posso escolher quem sobressai mais a partir dos meus gestos das minhas palavras e das minhas atitudes: eu ou o outro? À medida que levanto o olhar vou descobrindo que, escolha atrás de escolha, há outros mais importantes que os outros a que chamo meus e que há nós diferentes de outros nós e que tudo isso obedece à mesma lógica do eu: não cuidamos apenas do nosso nós mas de um nós que é de todos nós, ao qual sabemos e, à medida que a sabedoria ganha lugar, sentimos, que pertencemos. E descobrimos as regras, que garantem o direito ao meu lugar e a inevitabilidade do lugar do outro, que eu tenho de considerar, ainda que ainda não o reconheça, porque também a sua alteridade é parte importante e complementar deste imenso nós.
E arromba-nos a pergunta que nos serve de companhia toda a nossa vida: quem sou eu no meio de tantos eus? Quem sou eu no meio de tantos nós?
É no meu posicionamento perante a as múltiplas e progressivas respostas a esta mesma pergunta que me defino verdadeiramente. E que eu, Zé, encontrei em Jesus Cristo a resposta que tanto procurava e que me vai servindo e alimentando nos últimos anos: és um filho amado pelo Pai. Esta verdade, ou melhor, a consciência desta verdade, que sempre existiu, mas muitas vezes permanecia escondida na profusão do eus que me confundia e atormentava, é a base a partir da qual a premissa fundamental se alicerça: eu não sou O filho, sou um filho, irmão de outros filhos tão filhos amados quanto eu. Não caminho sozinho, não sou sozinho, sou um entre os outros, sou o outro de alguém, o nós de alguns, o nós de todos. Não ser sozinho, não caminhar sozinho, poder cuidar e ser cuidado, amar e ser amado, poder apreciar os dons daqueles que caminham comigo, dar Graças, todos os dias, pelo privilégio da sua companhia, marca indelevelmente a minha vida. Que diferente seria - que diferente fui! - sem esta consciência!
Não consigo deixar de sentir frustração e, sobretudo, imensa pena, por não conseguir transmitir tudo isto aos meus filhos. Desejaria que me escutassem o suficiente para que não cometessem os erros que irão cometer, não fizessem as más escolhas que irão fazer, para lhes poder aplanar o caminho, para que não sofressem o que irão sofrer. Mas são eles, não são eu. São parte imensa de mim, mas não são eu. Terão de ser suas as escolhas, suas as descobertas, seus os arrependimentos, contando que saibam que serão sempre também nossas as suas dores e nossos os recomeços. Amar é também isto: respeitar o caminho de cada um deles. Sendo sempre a parte mais significativa de nós.

