Bambora
Sinto-me em fase de letargia, de adormecimento geral. Faço as coisas mecanicamente, picando o ponto, cumprindo apenas, o que sempre detestei fazer. Parece que não há energia para mais, que foi toda sugada para uma espécie de buraco negro que me rouba a memória e o prazer de ser e de fazer.
As últimas circunstâncias do meu pai têm-nos forçado a focar nele. E na minha mãe. Agora já tem dores todos os dias, de uma maneira constante, e está-se a deixar ir abaixo, arrastando-nos com ele. Não que o queira fazer, ou sequer se aperceba disso, porque vive os seus dias sentado no sofá com a cabeça enfiada por entre as suas mãos. Volta e meia lá se levanta para dar dois passos – e eu com ele – e tento encetar uma qualquer conversa. Quase sempre em vão. Falo da vitória do nosso Porto, que somos quase campeões, falo da missa, sempre tão importante para ele, apelo à memória dos salmos, que antes andavam sempre na sua boca, mas nada disso resulta. O olhar vago, perdido, cansado, de quem já desistiu de tudo, não o abandona. E isso é muito penoso. E desgastante. Para ele, para a minha mãe, que o mima constantemente, para nós, que o acompanhamos e vemos-lhe a vida a ir embora aos bocadinhos. E dói. Meu Deus, como dói!
Na semana passada estive com ele três dias consecutivos, inteiros. De todos eles, saí esgotado. A doença cansa. Ou então é a falta de esperança. Já não falamos do cancro que ele tem. Fizemo-lo no princípio, sobretudo nas viagens para e das primeiras consultas. Abananamo-nos juntos, a dois, choramo-nos juntos, a dois, recuperamo-nos juntos, a dois, esperançamo-nos juntos, a dois. Agora já não há consultas. Nem viagens. Nem daqueles momentos a dois em que éramos apenas nós e contávamos memórias e ríamos e chorávamos e nos despedíamos um do outro com outro ânimo. Agora é só desânimo. Agora é chegar, dar a insulina, o pequeno-almoço, os medicamentos, e vê-lo afundar-se no sofá com o olhar vago, vazio, dirigido a lugar nenhum, numa cadência quotidiana marcada pela toma dos medicamentos. Entre eles, o absoluto desinteresse. Por tudo e por todos. Nós incluídos.
E, entretanto, a vida acontece. Lá fora. Fora daquela sala, fora daquele quarto, fora daquela casa, fora daquela vida feita de dor e desesperança. A minha vida não pára. Sinto-me sempre estúpido por me recordar disto, mas tenho mesmo de me recordar disto: a minha vida não pára. Continuam as atividades, as reuniões, as equipas para coordenar, os trabalhos para fazer, como se fossem dois mundos completamente distintos, paralelos: o dos meus pais e o que acontece lá fora. E eu – nós, eu e os meus irmãos – entalados na soleira da porta, com um pé dentro e um pé fora, com a cabeça lá dentro quando estamos lá fora, com a cabeça lá fora quando estamos lá dentro. E não há volta a dar. Porque eu não quero estar sempre lá dentro nem quero deixar de estar lá dentro. E então como que adormeço, letargio, como sempre me acontece quando me sinto profundamente dividido. Como se o meu organismo, a minha cabeça, o meu corpo, me forçassem a distanciar-me convenientemente de tudo para não queimar os fusíveis. E faço as coisas mecanicamente, picando o ponto, sobrevivendo, sorrindo e acenando para me manter à superfície. E fico calado, sorumbático, metido comigo mesmo, zangado comigo mesmo, enredado em mim.
A coisa boa disto é que hoje já pensei nisto. O que constitui sempre o primeiro passo para avançar, para sair desta letargia, e arregaçar as mangas. Até porque não consigo ser nada nem ninguém em condições para ninguém quando estou assim. Portanto, Bambora. A vida acontece de qualquer maneira. E será sempre melhor que aconteça comigo lá dentro. Para mim, para os meus pais, para os meus, para os que me rodeiam, para todos os que contam que eu seja mais que mero sobrevivente a esbracejar à tona da água. Ontem ouvi o Ricardo Araújo Pereira, num podcast, a dizer que gosta muito da palavra ânimo. Eu também. Está ligada à alma, à nossa identidade interior, e por isso ao Espírito que dá vida a todo o nosso ser. E eu preciso de me recordar desse animus, de voltar a olhar para ele e para o imenso que me habita. E que não se esgota, não se pode esgotar, na doença do meu pai. E hoje é um dia tão bom como qualquer outro para o fazer.
Bambora.


Muita força!
Tu és fantástico, Zé! Que Deus vos abençoe sempre!
Abraço amigo
Zé