colo
Por vezes esqueço-me de quem sou e tento pegar na minha vida apenas com as minhas mãos. Decido, julgo, escolho, corto aqui, colo acolá, determino, registo tudo na agenda, minuciosamente, criteriosamente, para saber o que fiz e o que irei fazer. Torno-me eficaz, previsível, seguro, de confiança, não me esqueço de coisa alguma, não me perco de coisa nenhuma, tenho norte, tenho rumo, tenho estrada e gosto em percorrê-la. E gosto de mim quando me olho ao espelho. Preciso deste régua-esquadro, desta segurança, que não me é interior mas imposta por mim próprio, empurrado pelo medo de descambar de uma vez, e logo numa altura em não me é permitido descambar, em que tantos contam tanto comigo e com a minha previsibilidade, com a minha certeza, com a minha segurança.
E do nada, do aparentemente nada, vou buscar a mochila à capela e estão lá os pequenitos dos cinco anos, a rezar, aos pés de Maria. E alguém me pede para cantar e pego na guitarra e cantamos, todos, juntos, sussurrando, com aqueles olhos de cinco anos encantados encantando-me, aqueles rostos maravilhados maravilhando-me, aquelas vozes sintonizadas sintonizando-me, recordando-me, logo hoje, da beleza inata, fundamental, arrebatadoramente simples, da vida. Sei que Deus me chama muitas vezes. Reconheço a Sua voz nas vozes dos que me chamam. E hoje, quem me pediu para me sentar e tocar era essa voz de Deus, que me pedia para serenar, sentar e tocar. E me permitir abandonar-me a Ele.
Eles vão embora. Eu permaneço. Como quase sempre acontece, rezo com o que me vem à cabeça, o que me preocupa, o que me assalta os dias, o que me rouba as noites. Rezo os acontecimentos, as minhas escolhas, as minhas fragilidades, o meu rumo e destino. Rezo a minha agenda, os meus afazeres, os meus registos pormenorizados. Começo a pensar no reverso da medalha. Peso as minhas escolhas, seguras, dos últimos tempos. Vou conseguindo ser eficaz, mas enjaulo-me, enclausuro-me, coarto-me, automatizo-me. Não me perco, mas não me encontro. Cumpro, mas não arrisco. Sou seguro, mas abafo, calo, adormeço tudo o que pode por em causa essa segurança. Sou metade de mim. E começo a sentir saudades de mim.
Não é de Dr. Jekyll e Mr. Hyde que se trata. Não existe propriamente um Zé bom e um Pinho mau. Apenas há momentos em que preciso de deixar de correr atrás da vida e deixar-me encontrar por ela. Perceber o que me pede, a cada momento, a cada época, a cada etapa, e deixar-me percorrer nela e por ela. Ou, para mim, que tenho fé, deixar-me encontrar por Deus, perceber o que me pede, e deixar encontrar por n’Ele e por Ele. E perceber que me pede coisas diferentes em circunstâncias diferentes. Que há alturas em que me pede firmeza e amor e carinho para ir a casa dos meus pais para lhes dar mimo por entre os medicamentos e a sopa. Que há alturas em que me pede rigor e discernimento para perceber e definir o rumo a seguir. Que há alturas em que me pede cuidado e atenção para tentar motivar outros, levando-os à redescoberta do bom que acontece quando é o nós que faz acontecer. E que há alturas em que me pede o que pediu hoje. Em que me oferece o que ofereceu hoje. Hoje pediu-me abandono. Hoje ofereceu-me colo. Pediu-me que deixasse a minha agenda e os meus afazeres e me sentasse e rezasse e me deixasse tocar na alma por aqueles miúdos de cinco anos.
E como foi bom!

