Diferença(s)
“A união faz a Diferença” li, pintado num muro perto do Cerco do Porto, a caminho do trabalho. Instintivamente, completei na minha cabeça: E a diferença faz a união.
Será, provavelmente, o que mais me ficou do meu pai: o jogo de palavras, as brincadeiras que ele fazia constantemente e que eu, miúdo, acompanhava divertido, sem sequer suspeitar que iriam fazer parte de mim e ficar para sempre. Ficou-me isso, o gosto pela palavra, pelos segundos e terceiros sentidos, pelas rimas, pelas ideias profundas que podem ser expressas numa simples frase, pelos pontos de partida que me atiram, imediatamente, para longe, para novas frases, novos sentidos, novas viagens. É muito nestas coisas de aparentemente nada que o meu pai permanece em mim.
Ontem tive de falar em público perante um conjunto de pessoas que não me eram confortáveis. Aliás, ontem nada me era confortável para falar em público: cansaço típico de final de período, fim de dia, calor, sala abafada, eu em cima de um palco, tremendamente exposto, sem a minha guitarra por perto para desbravar caminho, sem o calor dos que me ouviam. E eu já o sabia, já estava ciente disto tudo quando me levantei da cadeira, o que não ajuda nada, porque entro já em perda. O resultado deste caldinho já o conheço bem, à medida que vou falando, e gaguejando, vou ficando cada vez mais atropelado pela distância entre o que está na minha cabeça para ser dito e o que efetivamente digo, vou ficando mais tenso, começo a roubar as palavras e entro em autofagia. E não corre bem. Sobretudo porque não consigo passar a mensagem, o que me deixa frustrado e irritado porque foi uma oportunidade desperdiçada por mim.
Claro que não é a primeira vez que me acontece e não será a ultima. Já tive esta experiência inúmeras vezes e isso nunca me impediu de me voltar a expor daquela maneira. Faz parte. Game over, Game on. O mais pitoresco de ontem até aconteceu depois: um dos presentes, no final, pôs-me, condescendentemente, a mão em cima do ombro e teve a bondade de me dar a solução para deixar de gaguejar: à noite, em casa, sozinho, por uma caneta do meio da língua durante 15 minutos e falar, o que seria infalivelmente complementado por arranjar alguém que ofereça um ramo de rosas a uma santa cujo nome não fixei. Segundo ele, consigo tinha resultado e por isso era infalível. Eu ri-me, claro. Só podia. Pelos vistos, o que eu não consegui dizer, pela forma como tentei dizer, incomodou-o tanto que lhe deu a coragem para me receitar aquela solução cientificamente comprovada. Também não foi a primeira vez que me aconteceu. Nem será a última. Há sempre alguém que se sente imbuído na sua missão de me curar, sem sequer se questionar se eu preciso ou quero esta cura.
Até porque ontem tinha justamente tentado falar da Magnifica Humanitas e do que nos torna verdadeiramente humanos: a diferença, a incapacidade, a fragilidade, a inevitabilidade do erro e da opinião e do desejo e vontade e capacidade de fazer diferente. Perante uma Inteligência tão Artificial, tão pouco humana, tão autossuficiente, que pretensamente nunca erra, que faz tudo bem feito e com uma eficácia tremenda (daí o seu nome feminino :-)), o que nos distingue mesmo, o que nos vale mesmo, é não sermos nada disso. Somos pessoas. E, como ontem disse - parafraseando Leão XIV - somos filhos amados, o que não elimina o erro mas encontra no erro o motivo para amar. Não somos perfeitos, não somos autossuficientes, não somos donos e senhores de tudo, e o pecado originante é, sempre foi, pensarmos que o somos. E exigirmos essa perfeição aos outros. Implacavelmente. Nisso somos bons. Sobretudo em Igreja.
Daí que me tenha chamado à atenção aquela frase pintada num muro no qual nunca tinha reparado, apesar de passar lá todos os dias: A União faz a Diferença. E de a ter completado, na minha cabeça: E a Diferença faz a União. Fossemos todos iguaizinhos, perfeitinhos, com as capacidades todas desenvolvidas e aproveitadinhas ao máximo, sem defeitos, sem falhas, sem personalidades diferentes e aptidões diferentes e histórias de vida diferentes e interiores diferentes e mundos tão diferentes que nos habitam, e não fazia sentido sermos com os outros porque seríamos como os outros, porque não haveria nada neles que nós próprios não tivessemos. E seríamos apenas mais um. Pior, não seríamos, de todo, porque nada haveria que nos distinguisse e nos tornasse únicos e irrepetíveis.
Depois de me dar aquele sábio conselho, o meu pequeno divertimento foi ver a sua cara quando lhe disse que não estava interessado. Que eu sou assim. Que gaguejo. Que tenho dias bons e dias maus para falar em público, mas que prefiro ter dias bons e dias maus para falar em público que calar-me ou, pior ainda, tentar ser quem não sou. Se preferia não ter gaguejado ontem? Claro que sim. Não tanto por mim, mas pela mensagem que não consegui passar. Mas haverá outros dias e outras oportunidades e outras mensagens. Pode ser que o senhor em causa tenha a sorte de me apanhar num dia melhor. Quem sabe se, nesse dia, face à inusitada fluidez do meu discurso, não se questionará se não pus, afinal, a caneta no meio da língua e quem terá oferecido um ramo de rosas à santinha cujo nome não fixei. Espero que sim. Porque ficará feliz por me ter curado de tão grande mal. Missão cumprida.

