esbardalhar
A minha Micas, com a sabedoria profunda e informal que a caracteriza, costuma dizer que a vida nos pede coisas diferentes à medida que a vivemos. E que, por isso, o que desejamos hoje não é o que desejámos ontem e certamente não será o que iremos desejar amanhã. E esta é uma daquelas lapalissadas que parecem evidentes mas têm muito mais que se lhe diga.
Sabermos o que nos é pedido a cada momento é um caminho seguro para sermos e fazermos pessoas felizes. Que é, na verdade, a única coisa que importa: sermos e fazermos pessoas felizes. E por vezes, já gastámos tanto tempo à procura de ideais, já batalhamos tanto a arranjar ferramentas que nos preparem melhor para alcançarmos essa felicidade, que nos custa largar tudo, valorizando mais o passado que o presente, que é a maneira mais eficaz de perdermos o futuro.
Uma das minhas filhas teve, desde sempre, um percurso profissional de enorme sucesso. Quem avaliasse esse percurso pelos lugares onde trabalhou, as funções que desempenhou, as pessoas que conheceu e os projetos em que se envolveu - e mesmo o dinheiro que ganhou - não hesitaria em o classificar como o sonho de qualquer jovem advogado. E tudo à custa de muito compromisso, muito trabalho, muita competência, de muita seriedade, de um profissionalismo à prova de fogo. E infelicidade. Quando nos comunicou, com enorme custo, a sua coragem de parar e escolher outra coisa para fazer - a cozinha, que a apaixona - um dos seus lamentos era ter de abandonar uma série de investimentos de formação na carreira porque agora não lhe serviriam para nada. Louvamos todos a coragem dela - unimo-nos todos à coragem dela - porque, apesar desse investimento financeiro, formativo, afetivo, de vida vivida, ela estava a escolher não viver em função do passado, das tais ferramentas que, com muito custo, conseguira conquistar, mas da sua felicidade, do que fará com que sinta e viva a sua vida de maneira, para si, significativa. E isso é o que verdadeiramente importa.
Noutra altura, mais recente, em conversa com um dos meus filhos - todos eles pensam nestas coisas muito a sério - ele dizia-me que o assusta a ideia de casar e ter filhos e, no fundo - li-o eu, porque é meu filho, e sei bem quem é - da estabilidade que o impeça de viver a vida com a sofreguidão com que a viveu até esta altura. E um dos seus argumentos era de que achava muito difícil que alguém como eu chegue a esta altura da vida sem ter tido um momento de algum arrependimento, ainda que inconfessável, de ter tido uma vida “amarrada” aos filhos e à família. Eu ri-me, claro. E disse-lhe que estava completamente equivocado. Que tanto para mim como para a Isabel tinha sido justamente isso o que sonháramos juntos, e que por isso ter tantos filhos e agora netos era justamente o cumprimento desse nosso sonho tão sonhado. Mas também disse que esse sonho era o nosso, e por isso não tinha necessariamente de ser o de mais ninguém.
Acredito que uma das piores coisas que podemos fazer às nossas vidas é estancá-la. Compartimentá-la, defini-la a regra e esquadro, cedendo à tentação de a programar milimetricamente, prevendo tudo o que pode ou não acontecer. Claro que precisamos de ter horizontes, precisamos de os sonhar, precisamos de os programar, de sabermos o que vamos fazer hoje e amanhã e depois. Andar ao deus-dará não é confiança, é estupidez. Tão estúpido como viver cheio de medo de futuro, fazermo-nos robôs, fechados à novidade e ao que a vida faz acontecer. Até porque não somos apenas os papéis que desempenhamos. Não somos apenas pais e mães e maridos e esposas e casados e solteiros e advogados, médicos ou engenheiros. Somos imensamente mais que isso. E somos chamados a ser, a cada momento, muito mais que isso. Importa, por isso, conseguirmos discernir, a cada momento, a partir do que eu sou, o que sou chamado a ser. Quem sou chamado a ser. E para isso temos de parar, olhar para nós e termos a coragem de nos questionarmos: o que me faz verdadeiramente feliz? E manter o rumo sempre que gostamos de quem somos, e alterá-lo sempre que não nos reconhecemos no caminho que percorremos. E até - é preciso muita coragem para o admitirmos perante nós e perante os que nos amam - eventualmente regressarmos ao caminho que, algures, deixamos para trás, porque, afinal, a vida nos disse que é o melhor.
No evangelho do próximo domingo, Jesus pede a pescadores que venham ser pescadores de homens com Ele. Não lhes pediu para fazerem o que não sabiam, não lhes pediu para lançar as sementes ou para as colher nem lhes perguntou qual a melhor altura para lavrarem a terra. Pediu-lhes apenas um novo olhar sobre quem eram e o que faziam, levando-os a fazer aquilo que eles sabiam fazer, mas de uma maneira inteiramente nova e desafiante. E eles foram. Tinham passado toda a sua vida a pescar, sabiam tudo do mar, viviam tudo do mar, e ainda assim largaram tudo e foram. Arriscando tudo, porque não perceberam bem no que se iam meter, mas acreditaram - a fé é também isto, acreditar contra a toda a lógica, ao ponto de ser impossível não fazer aquilo em que se acredita - que a proposta de felicidade que Jesus lhes apresentava lhes fazia mais sentido que o futuro que eles tinham programado, visualizado, conquistado, segurado para si.
É pedir muito? É. Eu provavelmente não teria a coragem de o fazer assim de caras. E no entanto gosto de me perguntar em cada manhã, em cada dia, perante cada novidade e desafio que a vida, todos os dias, me coloca: o que me estás a pedir hoje? E nos dias bons tenho a coragem de saltar. Às vezes de olhos fechados, mas arrisco saltar. Já me esbardalhei à grande mas, com dizia ao meu filho, hoje vivo o sonho que sonhamos juntos.
E só isso vale a pena.
O resto é puro desperdício.

