escolher
Duas notícias que aparecem seguidas, agora mesmo, no meu Feedly: Trump promete “ataque pesado” e apoderar-se do petróleo do Irão e Papa aos migrantes: “Não podemos habituar-nos a contar mortos. A dignidade humana não tem passaporte”. Não podiam ser mais diferentes. Ainda por cima vindas de dois dos norte-americanos cuja voz se faz mais ouvir neste momento das nossas vidas. De um lado, a loucura; do outro, a sensatez. De um lado, a gritaria; do outro, a serenidade. De um lado, o fim dos tempos; do outro, a esperança num futuro melhor. De um lado, eu mando e vocês obedecem; do outro, todos, todos, todos. De um lado, Babel; do outro, Neemias. É só escolher.
Mas... queremos escolher?
Não é possível não escolher. Até porque este é um daqueles tempos em que a não escolha é, efetivamente, uma escolha. Temos de saber que vida queremos, que futuro queremos. E que agir em conformidade com a nossa escolha. Já o Papa Francisco dizia que vivemos conformados, instalados, comodamente instalados sobre os nossos privilégios, indiferentes aos que sofrem para que possamos viver comodamente instalados. Sim, na maioria dos casos esses privilégios foram conquistados, não nos foram dados de mão dada. Muitas vezes resultam do trabalho fora de horas, sem horas, dos nossos pais, que fizeram de tudo para que pudéssemos ter uma vida melhor que a sua. E nosso também, claro, que batalhamos todos os dias para que os nossos filhos e netos tenham futuro. Mas é justamente aqui que está a questão. Que futuro? Que futuro estamos nós a construir para os nossos? Que futuro estamos nós a construir para os outros? Haverá futuro se persistirmos nesta lógica de nós e os outros?
Há muitos anos, por volta da década de 90 do século passado - Meu Deus! Como o tempo passa! - um amigo dizia-me que quando os do terceiro mundo percebessem que são muito mais que nós, viriam por aí acima e tomariam conta disto. Note-se que na altura estávamos, ainda, a muitos anos de distância desta atual e vergonhosa vaga xenófoba, e que aquela era apenas uma mera conversa entre dois pouco mais de miúdos no final da sua adolescência. Mas eu nunca mais me esqueci dela. E a resposta que eu lhe dei na altura, inculcado pelo que se dizia lá em casa, mantenho-a completamente: antes de começarmos, a comida chega para todos. Isto é, a maior parte de nós pode bem viver com um pouco menos para que outros possam viver com muito mais. O tempo tem vindo a provar que não estava enganado.
Num dos sítios onde tenho o privilegio de trabalhar, apoiamos pessoas - filhos, pais, avós - de dois dos bairros sociais mais complicados da belíssima cidade do Porto. Nos últimos dez anos, a população que servimos alterou-se significativamente: agora são também muitos os africanos e alguns os sul americanos que brincam e estudam e jogam bola e se divertem e aprendem com aqueles cujos pais vivem no bairro desde sempre. Não são tantos como os que vemos em Lisboa, fruto no nosso abençoado provincianismo, e estamos ainda muito longe disso, mas ainda assim, têm chegado até nós em número crescente. Tirando a dificuldade inicial da língua e da pronunciação correta dos seus nomes, em nada uns e outros são diferentes. Partilham os mesmos espaços, os mesmos problemas, as mesmas dificuldades, a mesma procura, o mesmo desejo de uma vida melhor. O que os diferencia é que uns chegam de mais longe, enquanto outros já cá estavam. É só. E se sentimos alguma diferença efetiva, é na preocupação consciente e resiliente acerca do futuro da parte de quem vem de muito longe para poder sequer sonhar um futuro.
Pensei imediatamente nos nossos miúdos e nas nossas famílias ao ler aqueles títulos, proferidos por pessoas nascidas no mesmo país. Não é a nossa origem que determina as pessoas que somos. Contribui, claro, assim como contribuem todas as nossas experiências, todas as nossas pessoas, todas as músicas que ouvimos, filmes que vemos, livros que lemos, notícias que percorremos no telemóvel. Somos permeáveis ao que nos entra pela vida dentro, mas não estamos condenados a ser determinados pelo que nos entra pela vida dentro. Temos, ainda, pelo menos a maior parte de nós, a capacidade de escolher o futuro que queremos para os nossos e para os outros. E temos de escolher. Na maneira como olhamos uns para os outros, na maneira como falamos uns com os outros, na maneira como servimos ou nos servimos de quem está à nossa volta, no café, na rua, no trabalho, no autocarro no metro, na discoteca, no campo de futebol.
Temos a capacidade de escolher. E temos mesmo de escolher. A globalização mergulhou-nos num tremendo paradoxo: somos todos próximos uns dos outros - até eu tenho pessoas que me leem do outro lado do mundo - e distantes uns dos outros - há vizinhos de quem não sei - porque não quero saber - o nome. Mas temos mesmo de escolher: Babel ou Neemias? Competir ou colaborar? Cada um por si ou juntos? Eu ou nós? Nós ou todos? Temos mesmo de escolher.
Antes que deixemos de saber o que era essa coisa a que chamávamos escolher.

