Há muito de contranatura nos dias de férias. Que me deixam algo perdido.
Normalmente acordo com uma ideia clara do que tenho de fazer, com uma agenda milimetricamente preenchida. Registo nela - para que possa cumprir - até as minhas caminhadas e o tempo que dedico, não propriamente ao trabalho, mas ao imenso que na minha vida acontece fora do trabalho: reuniões dos vários grupos a que pertenço, coro, paróquia, catequese, pastoral familiar, jogos do FCP... E para além de fazer esse registo prévio, como trabalho sobretudo em dois espaços diferentes, vou registando também quando estou num e noutro, para além das reuniões e dos encontros de trabalho que acontecem fora desses espaços. Hoje, se me apetecer olhar para o que fiz num qualquer dia no ano letivo de 2021-2022, por exemplo, posso saber exatamente o que fiz, quando fiz e onde fiz, até porque está tudo ligado: agenda, documentos, memorandos... Ou seja, os meus dias acontecem voluntariamente espartilhados num qualquer horário, num qualquer esquema, que todos os domingos preparo e em cada manhã revejo para tentar não me perder. E ainda assim, volta e meia perco-me.
Hoje acordei sem ter grande ideia do que iria fazer. Sei que tenho uma marcação às 11:00 , mas antes disso e depois disso, nada. Consigo prever o que irei fazer: duas caminhadas - hoje talvez corra um bocado - as notícias, os blogues, ir atualizando o +365 que ficou um pouco lá para trás nos últimos tempos por falta de disponibilidade, arrumar a cozinha, ver o jogo do Benfica, mas nada disso é passível de ficar na agenda, nada disso tem mesmo de ser, nada disso é inadiável, o que o transforma tudo num enorme nada por estes dias. E isso faz-me confusão. Até porque não sou homem de arranjos, muito menos de obras, nem de jardinagens ou cavadelas no quintal e única planta que cuido religiosamente por estes dias é do meu Luís, um belíssimo Bonsai (é uma figueira, daí o Luís) que me deram no meu aniversário e cujas novas folhas me deliciam todos os dias. Por isso, por estes dias apenas caminho, escrevo e leio. Que é um excelente programa de vida, claro, mas que me soa - erradamente - a desperdício.
Há, no entanto, um fator que pode alterar tudo isto. No princípio desta semana estivemos em Afife. Entre outros, com o Vasco, o nosso neto mais novo. E ontem o Xico, o nosso neto mais velho, passou a manhã cá em casa. Isto altera tudo. Não é daquelas coisas que se coloque na agenda - quer dizer, há de chegar uma altura em que colocarei, mas não é para já - mas é daquelas coisas que precisam de um tempo dedicado, absolutamente dedicado, seja porque ainda são bebés - o Vasco - seja porque estão na fase dos porquês e da atenção constante como o Xico. E consigo ver como a nossa disponibilidade nestes dias de férias é tão importante para os nossos netos e as nossas filhas. Mesmo que estejam na mesma casa, na mesma sala, o facto de saberem que nós dedicamos a atenção que os seus filhos requerem permite-lhes uma descontração que, de outra maneira, não conseguiriam ter. Por isso me sinto útil quando estou com eles, porque é uma dedicação que vale a pena, é para ajudar, é para dar, é para fazer crescer, não é mero gasto de tempo, que é o que eu sinto quando apenas caminho, leio e escrevo.
O que torna tudo isto profundamente estúpido porque isso significa, no fundo, que estou tão “viciado” no utilitarismo da minha vida e do meu tempo que acabo por me configurar ao que faço e não ao que sou. E isso significa que, provavelmente, daqui por meia dúzia de anos, quando me reformar, irei passar por dificuldades em me readaptar à vida que quero e que mereço, no final de uma vida de trabalho. Já vi isto acontecer com muita gente e não quero nada que aconteça comigo. Nem quero que a minha vida apenas faça sentido para mim enquanto eu a encher com coisas para fazer, roubando-me de mim a mim próprio. O que é profundamente estúpido.
Assim como todo este texto. Vê-se mesmo que estou com tempo de sobra.

