gavetas
Eu gosto de, volta e meia, sobretudo quando me sinto mais apertado, de regressar ao pequeno. Ler as coisas mais simples, saborear sem complicar, sem questionar, como que fazendo um reset que me recorda que é na essência do simples que reencontro a paz que tanto procuro. Nesta fase da vida em que me encontro, regressar ao pequeno é impedir que o complicado se espalhe como um vírus contagioso. Trata-se de limpar a cabeça, arejá-la, permitir que entre ar fresco e dê uma varridela àquilo tudo. Não é ainda o tempo de aspirar e deixar tudo impecável, mas pelo menos não deixar assuntos por tratar espalhados, à mercê de uma qualquer corrente de ar que confunda ainda mais o que já está em pleno reboliço.
Hoje vínhamos a conversar no carro e percebi há ainda muita coisa em mim por resolver. Para resolver. Memórias, dores, silêncios, ausências, solidões que na maior parte das vezes se encontram devidamente engavetadas, que têm já nome e reflexão que lhes deu nome, e se encontram, não esquecidas - há coisas que jamais esquecemos - mas devidamente integradas. Vivo com elas e elas comigo. Mas também há outras que, tendo sido tidas como tratadas, não o foram ainda definitivamente, foram apenas silenciadas e que, naturalmente, expectavelmente, volta e meia, quando fico abananado por causa de um abanão mais intenso, vêm à superfície, com uma pujança reforçada, como que acicatadas pela clausura a que foram votadas. Há vozes, interiores, que raramente se deixam de fazer ouvir mas não se calam, sussurram, quase em surdina, quase imperceptíveis, mão se deixam calar.
Ontem disse-me que andava afastado. Que entendia, mas que eu estava outra vez a afastar-me, a procurar a solidão, a refugiar-me no silêncio, e que isso complicava imenso a sua parte. É verdade. Não me tinha apercebido, mas é verdade. Tendencialmente, refugio-me com extraordinária facilidade num qualquer dos meus mundos e aí permaneço, numa autofagia que necessita de muito pouco para se alimentar. Mantenho intacta a minha capacidade operativa, a minha organização profissional, as minhas reuniões e encontros, como se habitasse num outro mundo, numa outra realidade, sentindo-me genuinamente, aliás, num outro mundo, numa outra realidade alternativa, que me permite rir e conversar e aparentar uma alegria que efetivamente sinto. “O poeta é um fingidor…”.
Quando estou aí. Mas não estou sempre aí. Porque vou alternando com um outro lugar, esse tal meu mundo, habitado apenas por mim e pelas minhas memórias, pelas ausências e pelas dores e silêncios e sentimentos que ainda não têm nome, ainda não têm etiqueta, que ainda não consegui encaixar na minha vida, na minha narrativa e por isso estão, ainda, desordenados, ainda esvoaçam ao sabor do que me vem à cabeça. E não tenho maneira de os partilhar. Não sei como os partilhar, não sei como falar deles porque não sei como falar do que ainda não conheço, do que ainda não me é claro, do que ainda não tem nome em mim. E calculo como deve ser difícil viver comigo nestas alturas. Imagino como será difícil e confuso, para quem me ama, para quem me acompanha, ver-me ora divertido, rindo e fazendo rir, para pouco depois me ver acabrunhado, isolado, ausente, longe. Imagino as questões que se colocará, sobretudo porque nem sempre tenho a capacidade de estar onde seria suposto estar, de habitar onde deveria habitar, e não raras vezes resisto a ausentar-me até à altura em que estou com os meus, porque sei que os meus me amam, mas isso reserva-lhes apenas a minha ausência. E isso é tremendamente injusto.
Quando me disse, ontem, que estava ausente, percebi que tinha estado ausente. Não por vontade própria, mas por mera incapacidade de lidar comigo. Já sei das minhas fragilidades, já não as escondo, já as assumo, mas parece que ainda me escondo nelas. Com elas. Ontem disse que é assim que eu sou. É mesmo assim que eu sou. E o mais que consigo, pelo menos nesta altura, é ser quem sou. Nas verdades que consigo ser. Pelo menos até voltar a dar nome às dores e às memórias e aos silêncios magoados, até conseguir catalogá-los e emprateleirá-los para poder varrer tudo direitinho, ver se não fica nada debaixo do tapete nem fora das gavetas. Claro que preferia não ter gavetas e ter janelas abertas e ser arejado e limpo e leve como um passarinho. Não sou. Não sei se alguma vez o serei. Mas pelo menos já me vou culpando menos por não o ser. E isso é também caminho. Espero eu.

