Igreja
Nos últimos tempos tenho tido várias experiências simultâneas de viver em Igreja. Não, não fui para um mosteiro ou para um convento. Continuo casado, a minha família vai ficando maior à medida que os meus filhos vão escolhendo os seus pares e vão tendo filhos, e exerço a mesma profissão há mais de vinte anos com uma paixão que faz com que não preveja nem pretenda mudar. Mas isso não me impede de viver em Igreja, na enorme multiplicidade de maneiras e formas que a Igreja concede a cada um de nós, de ser e fazer comunidade. Na realidade, a experiência verdadeiramente nova dos últimos quase três anos tem sido mesmo fazer parte de um grupo que pensa e trabalha a Igreja a partir do nível diocesano. Para mim tem sido uma experiência inteiramente nova. E nem sempre inteiramente positiva.
Eu entendo a necessidade dos organismos diocesanos. Acredito, muito e sempre, no trabalho em equipa e, por isso, vejo como muito bom que os nossos bispos sintam a necessidade de ter leigos próximos de si para pensarmos juntos e organizarmos a rede que é a vida das comunidades paroquiais. E uma das surpresas boas é que desfiz a ideia que nós, leigos, seríamos tidos como meras correias de transmissão. Não acontece. Ou, pelo menos não acontece sempre: há uma diálogo aberto, efetivo, de aprendizagem mútua, que nos engrandece como pessoas e como Igreja. Depois, há quem tenha a responsabilidade e a incumbência da decisão, mas com isso eu convivo e sempre convivi muito bem.
E, pelo menos na equipa de que faço parte na minha diocese, não há poupança de esforços na tentativa de arranjarmos soluções para os vários problemas que enfrentamos. Somos todos leigos muito empenhados, competentes nas nossas áreas de intervenção, abnegados e muito interessados em ajudar a construir uma Igreja que possa ser, efetivamente, casa e colo para quem nos procura. Sentimo-nos - e somos, efetivamente - companheiros de jornada, eternos insatisfeitos, eternos buscadores, não poupando esforços na procura de soluções e intervenções novas e inventivas junto dos organismos que, no complexo organigrama da estrutura hierárquica, estão entre nós e as paróquias.
E aqui reside a maior dificuldade: temos os bispos, temos as nossas equipas, temos as equipas de ligação entre nós e as paróquias e temos as paróquias e depois os leigos. Por vezes, muitas vezes, parece que estamos a jogar aquele jogo do telefone estragado e a mensagem que chega - quando chega, porque fica muitas vezes pelo caminho - nem sempre é inteiramente fiel à que foi emitida. Ou à desejada. E o que temos, afinal, é uma série longuíssima de pessoas muito competentes, muito interessadas, genuinamente empenhadas na construção de uma Igreja mais viva, mais ativa, mais perto das pessoas, mas que não chega às pessoas. E em alguma altura teremos, todos, de parar, para pensarmos nisto a sério.
Ou então, não inventamos nada e levarmos a sinodalidade a sério. Até poderia ser exatamente com as mesmas pessoas que já fazem parte das estruturas existentes, às quais se juntariam outras que estão no terreno, nas paróquias, num fim de semana alargado, e fazia-se um processo sinodal a sério, que envolvesse os três grandes momentos do trabalho do cristão: oração, discernimento e ação. Poderíamos ter a catequese como grande desígnio para os próximos cinco anos, por exemplo, uma vez que hoje quase tudo gira à volta da catequese/formação. E saímos desse fim de semana de trabalho com um verdadeiro Projeto, com um rumo, com etapas anuais que fossem verdadeiramente cumpridas. A partir desse documento orientador, trabalharíamos todos nas paróquias, nas diversas comunidades, localmente, sob um mesmo rumo, sob a orientação dos nossos pastores, cujo olhar atento é absolutamente imprescindível, sobretudo em ambiente de sinodalidade, porque seremos mais ovelhas a pensar mas precisamos sempre de um pastor que nos oriente e coordene. E dessa maneira concertaríamos esforços e capacidades e dons e tempo e, sobretudo, sentir-nos-íamos, todos, membros ativos deste corpo que é a Igreja.
Sim, eu sei, não é fácil. Sim, eu sei, não temos tempo. Sim, eu sei, nem todos os leigos - e sacerdotes, e religiosos, já agora - estão preparados para uma sinodalidade efetiva, sem subterfúgios. Sei disso tudo. Mas também sei duas coisas: que Deus habita na realidade, e esta é a nossa realidade. E que só não avançamos por medo. E o medo é o oposto da fé. E uma Igreja sem fé é apenas mais uma organização como as outras e perde a sua razão de existir.

