ismos
Estou a ouvir, agora, as mulheres estão a discutir futebol. O jogo de Portugal de ontem, o Ronaldo, o Martinez, os posicionamentos da equipa. Ainda me soa meio esquisito aos ouvidos.
Provavelmente acontecerá com todos, mas em mim, muitas vezes, o racional e o intuitivo nem sempre se entendem. Racionalmente, não faz sentido nenhum que aquelas vozes femininas a falar de futebol me soem esquisitas aos ouvidos. Não há motivo nenhum para que as mulheres não gostem de futebol, não discutam futebol, não percebam muito mais de futebol que eu. Mas a verdade é que, quando eu era novo, raras eram as mulheres com quem eu contactava que ligavam ao futebol. E por isso tenho como natural que aliar a tática de Portugal no jogo de ontem a uma voz feminina me soe estranho. Errado, claro. Mas natural. Mas mais errada que essa estranheza é a desvalorização instintiva que eu faço do que elas dizem acerca de futebol. E a forma jocosa com que lido com essa questão, que quando penso a sério nisso, é mais que uma piadola, é um subterfúgio, uma maneira de lidar - e alimentar - com a esquisitice. Que eu tenho de corrigir.
Fomos ver o concerto da Carminho ao Coliseu. Às tantas, naquelas partilhas que ela tão bem faz por entre os fados que ela tão bem canta, diz qualquer coisa que tem a ver com o tom patriarcal do fado. Torci logo o nariz. Para além de não apreciar ismos, não me pareceu que aquele ismo tivesse alguma coisa a ver com o que se estava a passar em cima do palco. E no dia seguinte falei nisso lá em casa e uma das minhas filhas - a mais sensível a estes ismos - empertigou-se logo toda, o que deu um excelente motivo de discussão. Comecei, como começo sempre nestas coisas, por desvalorizar o que eu tinha dito, e acabei a perceber que o que eu digo, sobretudo o que digo sem pensar, numa brincadeira qualquer, tem sempre peso.
E normalmente brinco muito com estas coisas. Faço uma piadas acerca das mulheres na cozinha e dos homens no futebol, sobre quem veste saias e quem veste as calças lá em casa, quem manda e quem pensa que manda. São só brincadeiras, são só provocações, são só coisas que se dizem da boca para fora sem qualquer intenção que não seja fazer rir e provocar uma resposta. Mas digo-as. E digo-as com a facilidade de quem as diz a partir de uma posição de privilégio: sou homem. Pelo menos, na minha geração, esta era uma posição de privilégio. Com uma série de implicações que para mim eram tidas como absolutamente naturais mas que, quando penso nelas, já não o são.
Claro que, quando falo a sério, quando discuto este assunto dos machismos e feminismos, tenho uma posição clara e absolutamente determinada: ninguém é mais que ninguém, ninguém é menos que ninguém, ninguém é igual a ninguém. Todos temos os mesmos direitos e os mesmos deveres, qualquer que seja a nossa circunstância, qualquer que sejam os papéis que, em sociedade, em comunidade, escolhemos desempenhar. Não faz sentido que uma mulher, apenas porque é mulher, tenha um ordenado mais baixo que o de um homem, ou mais dificuldade em chegar a um lugar de chefia, ou uma mãe tenha a obrigação de ficar em casa com o filho doente, e não o pai, ou que a bricolage seja uma competência exclusiva do homem e a casa da mulher... nada disto, que no meu tempo era ainda tido como natural, faz qualquer sentido. Aliás, foi assim que os meus filhos cresceram e foram educados e hoje, nas suas vidas, já não têm essas questões sobre quem cozinha, quem fica com os filhos, quem conduz, o que quer que seja. Nem sequer a discussão faz grande sentido, para eles. Tudo é absolutamente natural.
Mas isso são eles, é a sua realidade, e a verdade é que eu tenho de trabalhar isto em mim. Sobretudo lá em casa. É raro cozinhar, mas arrumo muitas vezes a cozinha. E sempre que a limpo instintivamente sinto que me é devido um agradecimento especial por ter arrumado a cozinha e por o fazer tão bem, como se não fosse meu dever fazê-lo enquanto a Isabel faz outras coisas. Faço-me entender? Racionalmente, não me passa pela cabeça ter o direito de não o fazer, mas instintivamente a conversa é outra. E a mesma coisa com o futebol, com as oficinas, com a condução... Lá em casa quem cuida das obras é sempre a Isabel. Quem se apercebe das necessidades, quem contacta, quem contrata, quem fala, quem vê se ficou bem feito, é a Isabel. Eu não percebo, não quero perceber, nem me meto nisso. Mas fico sempre a sentir que não cumpro o meu papel de homem ao delegar as obras para a minha mulher. É estúpido, não é? Na verdade, cresci numa cultura que tinha ainda muito de patriarcal. Desde cedo tive consciência disso e desde cedo o combati, também em mim, mas pelos vistos ainda não de forma a que me seja mais natural ouvir as mulheres a discutirem táticas e jogadas e Ronaldos e seleções.
Mas sou um otimista. Acredito que lá para os 85, quando já estiver surdo como uma porta, possa lidar estas coisas com maior naturalidade. Só não tenho é muito tempo!

