jason
Anteontem o Jason Romero acampou cá por dentro. E continua acampado, refastelado, a fazer o seu caminho cá por dentro. O Jason é um tipo de Denver, Colorado, EUA, que está a fazer o Caminho de Santiago, desta vez a partir do Porto - que ele acha belíssimo, como é natural. Apanhei-o por acaso, numa das pequenas histórias do Facebook, as Buen Camino Talks, e me aparecem muitas vezes. A particularidade do Jason - repliquei o seu dialogo no meu Facebook - é que tem uma doença que o conduz progressivamente à cegueira e por isso escolheu apreciar a beleza dos vários Caminhos antes que deixe de os poder ver completamente. Espantoso! Não admira que o Jason tenha acampado cá por dentro!
Nem sempre gostamos do que a vida nos vai dando. É normal, é absolutamente natural, que isso aconteça. Graças a Deus, preferimos a alegria, o riso, o convívio, a possibilidade de saborear as coisas boas da vida, sobretudo se vividas com aqueles que amamos. São esses os momentos que gostamos de recordar e que ansiamos repetir. Ninguém gosta da doença, do sofrimento, da dor. Mas a verdade é que a vida tem também doença, sofrimento, e dor. É inevitável. Faz parte de quem somos. E somos chamados a viver esses momentos duros e difíceis com o mesmo peito aberto com que vivemos as alegrias: de corpo e alma inteiros. Por isso digo muitas vezes que quando é para rir devemos abertamente e quando é para chorar devemos chorar abertamente. A vida é feita disso mesmo, de momentos bons e maus, e somos afortunados se temos a possibilidade de vivermos uns e outros com quem nos ama.
Consigo-me transportar com alguma facilidade para o pânico que sentiria se me visse na mesma situação que o Jason. E não me é muito difícil imaginar-me afundado no sofá cheio de pena de mim próprio a pensar que o meu mundo tinha acabado, acelerando dessa forma autocentrada esse fim do meu mundo. Nós fazemo-lo com frequência: antecipamos o nosso fim do mundo, o nosso fim de vida, porque não conseguimos ver para além do que temos diante dos olhos, porque nos agarramos apenas ao que temos diante dos olhos. E a vida é tão mais que isso!
No evangelho do próximo domingo é mais ou menos isso o que acontece com os apóstolos. Durante a ceia, Jesus tinha-lhes dito que iria morrer. E eles ficaram tão abananados que só conseguiam ver o fim do seu mundo. Todo o diálogo que se segue, entre Jesus e Tomé, e depois com Filipe, revelam isso mesmo: eles, que tinham vivido mais de três anos com o Mestre, não estavam a perceber nada daquilo. Tinham saído de suas casas, largado os seus afazeres e as suas famílias para encontrarem um lugar privilegiado junto do Messias, e afinal ele disse-lhes que iria morrer. A desilusão era tanta, o medo era tanto, que eles questionaram tudo: afinal, em nome de quê ou de quem tinham eles percorrido aquele caminho? Para quê? Porquê? Onde estava Deus naquilo tudo? Teriam caído num embuste? Naturalmente nenhuma destas questões se lhes havia ocorrido de forma significativa enquanto a vida lhes corria de acordo com as expectativas. Mas bastou que estas se vissem goradas para que as dúvidas lhes cravassem a alma. E o último reduto da resposta de Jesus é: acredita em mim, olha para o que eu faço e encontras as respostas, descobres o sentido, à medida que fazes o que eu faço.
Testemunhos como o do Jason fazem-me ligar ao sentido da vida. Não sei se ele é católico, ou cristão. Não sei se escolheu fazer o Caminho pela fé ou pela beleza. Não sei se é como eu, que quando estou mais perdido meto pés ao caminho e deixo-me interpelar e redescobrir nos passos que vou dando, tantas vezes sem pensar. Não sei sequer se ele caminha para se encontrar ou para fugir da inevitabilidade da sua cegueira. Não sei muita coisa. Não preciso de a saber. Sei que ele escolheu não se afundar no sofá e aproveitar a beleza do que podia ver enquanto a podia ver. E que isso é uma lição para mim. O Jason acampou cá por dentro. Está acampando. Espero que fique muito tempo. E que me bata à porta da memória quando eu precisar de ser recordado que a vida é para se viver. Longe do sofá.


Lindo, Zé 👏👏👏