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Acabei agora mesmo de o ler. Todo. Inteiro. Em poucos dias, o que já nem me lembro de alguma vez ter acontecido. Comoveu-me. Imenso. Várias vezes. Não me recordo de alguma vez ter visto tão bem espelhada a Igreja em que acredito, aquela em que vivo, aquela por que batalho todos os dias, com maior ou menor dificuldade, com maior ou menor descrença, com maior ou menor convicção. Não me recordo de alguma vez, alguém ter sido tão cru, tão leal, tão despudorado, tão sem salamaleques, na maneira como se refere às imensas igrejas que são a Igreja, à nossa diversidade, à nossa incongruência, à nossa incapacidade de sermos minimamente congruentes com o que Jesus quis que fôssemos. Todo o livro nos olha, a nós, católicos, de fora e de cima, sem os laços afetivos que inquinam uma qualquer relação, sem justificar ou acusar, limitando-se a relatar os vários encontros, as várias pessoas, os vários acontecimentos, como se de uma reportagem se tratasse. Não há, neste livro, a menor tentação de evangelizar ninguém, de converter ninguém, de vender o que quer que seja, e isto é, pelo menos para mim, uma novidade imensa. Ninguém, ao ler este livro, vai ao engano: “Sou ateu. Sou anticlerical. Sou um laicista militante, um racionalista obstinado, um impio inveterado.” Assim começa o autor, Javier Cercas. Não podia ser mais direto, mais verdadeiro, mais desmotivador para quem apenas procura a confirmação daquilo em que acredita. Mais desafiante para quem procura ir mais longe.
Este livro não é meu. É de um dos meus filhos. Um dos que acreditou muito até determinada altura da sua vida - ponderou ir para padre! - mas que agora, apesar de viver com Deus dentro - é médico - perdeu toda a fé na Igreja. Como ele, conheço imensos outros que fizeram parte de grupos de jovens, que foram catequistas, para quem Jesus continua a ser uma referência importantíssima nas suas vidas, mas a quem, a determinada altura, a Igreja falhou. Nós falhamos. Seja porque não os soubemos acolher, seja porque se opõem frontalmente à forma como continuamos a tratar o sexo e as mulheres e os divorciados e os homossexuais e a impor o celibato enquanto desviamos o olhar para os abusos e os dinheiros e as ostentações e os poderes de uma hierarquia laical e clerical que se autopromove e teima em não arredar pé. Ainda não tinha acabado de ler este livro e já lhe dizia que ele tem de o ler. Até ao fim. Para perceber que eu e a mãe dele e tantos de nós não somos débeis mentais nem coniventes, mas acreditamos sobretudo no Jesus Cristo que olha para todos com olhos de amor, e que tentamos, todos os dias, ser esse olhar, também dentro da Igreja, porque quem nos procura merece a alegria de ser visto com a mesma dignidade com que Jesus olhou todos os que O procuravam, porque quem nos procura não pode encontrar apenas a prepotência e o apontar do dedo.
Aconselho vivamente a leitura deste livro. Sobretudo aos que, como o meu filho, estão desencantados com a Igreja. Para perceberem como há muita mais igreja que aquela que vemos e ouvimos nas notícias permanentemente acusada das maiores atrocidades, ou que aquela que vemos e ouvimos noutras notícias como a sempre santa e impoluta e absolutamente imprescindível para a salvação do mundo. Ou então aquela que é ainda um antro da inquisição ou pejada de anjos. Ao longo deste livro lemos acerca de cardeais e padres e leigos e missionários e culturas diferentes e pequenez e grandezas, mas sobretudo lemos vidas, tão cheias de dúvidas quanto a de todos nós, tão à procura quanto todos nós, tão a tatear o que fazer em cada dia quanto todos nós, pelos menos os que de nós têm a procura como lema e modo de vida.
Terminei o livro, no entanto, com algum desconforto. Leão não é Francisco, e não sei ainda qual o passo de Leão XIV: se anda para a frente, se recua, se anda para os lados, embora não me pareça que ziguezagueie. Tenho lido e ouvido e visto muitas coisas interessantes, das quais tenho gostado para o futuro da minha Igreja, mas nada é ainda claro. E, por outro lado, se há algo que este livro confirma, pelo menos a mim, é que há muito mais Igreja que aquela que acontece nas politiquices do Vaticano. Lembro-me sempre daquele jogo meio infantil, o telefone estragado, ao qual nunca achei grande piada, mas que espelha um bocadinho o que se passa: entre nós, leigos e Leão XIV, o nosso Papa, há muitos pontos de desinformação, muita mensagem que não passa ou que passa adulterada segundo as conveniências de cada um. E mesmo entre nós, leigos, conheço muitos que são mais papistas que o papa e mais bispistas que o bispo e são os primeiros a garantir que a clericalização medre, nem que seja para a manutenção dos seus lugares que, entendem eles, são de destaque. E como nós, a mesma coisa acontece entre os sacerdotes e os religiosos e toda a série de consagrados que também têm visões muito diferentes do caminho a seguir. Um bom exemplo disso é a tão - por mim - esperada sinodalidade. Ainda há pouco tempo ouvi, incrédulo, numa das ações de formação, que as conclusões do encontro sinodal não terão necessariamente eco nas decisões da diocese, porque tudo depende da maneira como o Espírito Santo intercede no discernimento dos Bispos. Pelos vistos, “todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais do que outros", como escreveu Orwell. Enfim!
Há livros que tenho de ter. Para reler, para regressar, para emprestar, para motivar, para esclarecer, para demonstrar, para ajudar a crescer. Este é, sem dúvida, um deles. Que em boa hora me veio para às mãos.
Pelas mãos do meu filho.
Os caminhos de Deus…



Foi um livro que me marcou muito, este ano. Que tem tocado quem conheço - ateus, agnósticos e crentes - de maneiras diferentes. Não me canso de o recomendar.
Zé. Gostei muito da descrição que acabas de fazer desse livro que tem um título, muito sugestivo e apelativo.
Gostei. Contudo, não apresenta quase nada daquilo que tu e eu já conhecemos. Tu bastante mais que eu.
Retirei, para mim, claro, três grandes notas: uma Igreja que desencantou, um Papa que querendo afirmar-se, ainda não definiu um caminho e uma Igreja tremendamente coleriquíssima, bem ao contrário do caminho em que colocamos toda a nossa esperança: uma Igreja SINODAL.
Obrigado.