lutas
Temos, mais uma vez, leprosos entre nós. Desta vez não estão, ainda, muito perto, sentimo-nos ainda seguros no nosso quotidiano, por isso não nos diz, ainda, respeito, a não ser quando nos imaginamos na sua situação de aprisionados num barco de luxo com um vírus à solta. E é bom que fiquem por lá, como se prova pelas recusas constantes no seu acolhimento. Somos todos muito cheios de humanidade quando podemos estar suficientemente seguros, sem o risco do contágio. Interiormente inventamos desculpas e justificações para conseguirmos viver melhor com a nossa consciência: são ricos, estão longe, noutros mares, noutras fronteiras. Mas é bom que não venham para aqui.
A base é sempre a mesma, porque nestas coisas não evoluímos nada: medo. A nossa história, a da nossa humanidade e a da nossa vida, é pródiga em situações destas. Apenas mudam os vírus, porque o medo é o mesmo. Por vezes é o que não vemos, o que nos aflige. Noutras é mesmo o que vemos, o que nos entra pelos olhos dentro, o que provoca esse irracional desejo de defesa. Deem-lhe o nome que quiserem, seja um vírus, uma bactéria, seja a cor da pele, a maneira de vestir, o género, a maneira como se pensa, aquilo em que se acredita - e aquilo em que não se acredita - nós somos lestos em levantar muros, raras vezes visíveis, que nos façam sentir seguros, puros, enclausurados, sem qualquer risco de contágio de qualquer coisa que venha de fora e que nos roube a nossa convicção de inteireza. E pureza. Mas ninguém está de fora.
Na eucaristia do próximo domingo ouviremos Jesus a dizer “se me tendes amor, cumprireis os meus mandamentos”. É importante percebermos, no entanto, que esta frase faz parte do longo e belíssimo discurso de despedida de Jesus. E que Jesus explica, no final do capítulo anterior, quais são estes seus mandamentos: “que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei”. E continua: “Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros”. E diz depois, a grande novidade: “Eu estou no meu Pai, e vós em mim, e Eu em vós.” Assim. À maneira de Jesus: tremendamente simples e tremendamente complicado. Tremendamente simples de entender e tremendamente complicado de fazer. Acredito que é por isso que nos agarramos mais aos outros mandamentos. Afinal, tudo fica mais fácil se tivermos uma folha excel com uma dezena de regras que todos têm de cumprir. Dá menos trabalho para percebermos quem devemos acolher e quem devemos excluir. Quem é puro e quem é “leproso”. Até nos temos de questionar menos: basta cumprir coma folha de excel e Deus não tem outro remédio senão sentar-nos à sua direita.
Não é fácil vencermos o medo. Nunca o foi. Nunca é. Nunca o será. Porque não é fácil amar. Amar mesmo, sem se gostar de quem se ama - amar nada tem a ver com gostar muito - mas amando na mesma, estando, permanecendo, nunca desistindo qualquer que seja a sua circunstância, qualquer que seja a minha circunstância. Não é fácil. Não é fácil termos a secretária cheia de relatórios para corrigir e permitirmo-nos escutar um amigo que, naquele momento que é o pior momento, precisa de desabafar. Não é fácil - e confesso que para mim é extraordinariamente difícil - deixarmos de lado a nossa agenda do dia que está milimetricamente programado para atendermos a quem precisa de nós. Não é fácil cuidarmos de alguém que até cheira mal, ou está bêbado, ou até se portou mal e tem justamente o que merece. Mas temos de o fazer. E de aprender com quem o faz. Porque não há outra maneira de amar.
Há um par de anos fui com o meu filho ao Dragão ver o nosso FCP. Fico sempre demasiado entusiasmado nestes dias, acordo já a pensar nas emoções, visto a camisola, envergo o cachecol, e antecipo internamente, como num vulcão, o entusiasmo do jogo , porque gosto imenso de tudo. Nesse dia ia com o meu filho - que estava, na altura, no princípio da sua especialidade médica - com todo o frenesim, sem ver nada à minha frente a não ser o estádio, e ele repara num velho que está, de pijama e roupão, na rotunda de Contumil. Aproximou-se dele e rapidamente percebeu que o senhor em questão estava efetivamente perdido. E tratou de conversar com ele, perceber a sua situação, e depois chamar a polícia e a assistência médica, e não arredamos pé até que ele ficou bem entregue. Eu não o tinha visto. E se o tivesse visto, o mais provável é que tivesse seguido sem reparar nele. E, ainda que, por um milagre, tivesse reparado nele, o mais provável é que tivesse elaborado uma narrativa interior qualquer que me permitisse ir ver o meu jogo descansado e nunca mais pensar naquele velho, de pijama e roupão, em plena rotunda de Contumil.
É-me muito frequente, no que digo e no que escrevo, falar de mim. E para mim. Quando escrevo que é fácil vivermos com medo, refiro-me ao medo que sinto, é para mim que o escrevo. Quando recorro a Jesus, ao que Ele diz, é sobretudo para me recordar o que me diz, a mim, que o escrevo. Porque a vida interpela-me, constantemente, interroga-me, constantemente, desafia-me, constantemente, e eu estou constantemente a tentar perceber-me nestas interpelações, nestas interrogações, constantemente a resistir a fugir destes desafios que a vida me vai colocando todos os dias. Eu estou naquilo que digo, naquilo que escrevo. E percebo muitas vezes que, se o faço, é para não me deixarem sozinho nesta luta, tantas vezes inglória, de tentar ser melhor. Todos os dias.


Demasiado forte e demasiado grato, para a sociedade que estamos formando.
Muito obrigado