Magnifica Humanitas
Para O Poço
Magnifica Humanitas
Raramente vimos tamanho alvoroço na comunicação social a propósito de uma encíclica: a Magnifica Humanitas foi notícia e motivo de discussão global, pelo menos em todos os canais noticiosos do país. Justificadamente. Afinal, a Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV, é uma pedrada no charco: faz as perguntas certas - Para onde vamos? Para que meta desejamos orientar-nos? Que direção escolher enquanto comunidade humana e enquanto povos? (MH6) - aponta o caminho a seguir - a Doutrina social da Igreja é um património de sabedoria, onde encontramos princípios para pensar, critérios para discernir e julgar, orientações concretas para agir. Ela baseia-se na Sagrada Escritura e na Tradição e, em diálogo com as ciências, ajuda-nos a ler os desafios do presente com lucidez, identificando caminhos adequados para viver, com alegria e ao serviço do mundo, um límpido testemunho cristão. (MH3) e faz questão de, logo no início: convidar outros a colaborar connosco na promoção do desenvolvimento integral de cada ser humano. Desejamos entrar em diálogo com todos os homens e mulheres do nosso tempo, com os quais partilhamos os acontecimentos, as questões e as aspirações da humanidade. (MH2)
O Papa Leão XIV começa por nos confrontar com a necessidade de uma escolha: Babel ou Jerusalém. A história de Babel, narrada no Livro do Génesis (11,4), é conhecida: a construção de uma torre altíssima, que chegue até aos céus. Todos falavam uma só língua, usavam uma só tecnologia maravilhosa, tinham um único objetivo: serem recordados como os maiores, ou seja, serem deuses. Afinal, apesar desta aparente maravilha, Babel revela o limite de qualquer construção, ainda que grandiosa, surgida da absolutização do humano e da sua pretensão de autossuficiência, do sacrifício da dignidade das pessoas em nome da eficiência e da ambição de alcançar o céu sem a bênção de Deus.(MH7). A outra parte da escolha é Jerusalém, ou melhor, Neemias (Ne 2, 17): o Profeta está, junto com o Povo, cativo na Babilónia, e pede para ir a Jerusalém. Lá chegado, depara-se com a destruição total do Templo. Perante o desalento, Neemias não impõe soluções vindas do alto: convoca as famílias, confia a cada uma delas uma parte da muralha para reconstruir, ouve os receios, coordena os esforços, enfrenta as oposições. O relato mostra como a cidade renasce não graças à iniciativa de uma única pessoa, mas através da responsabilidade partilhada por todo o povo: sacerdotes, artesãos, chefes de família, mulheres e jovens. É uma obra que tem Deus no centro e que reconstrói as relações antes mesmo das pedras. Com efeito, a antiga Jerusalém reencontra uma linguagem comum, não a da uniformidade, mas a da comunhão. (MH8) É esta a escolha que somos chamados a fazer: entre a pretensão de autossuficiência e a responsabilidade partilhada, entre a exclusão e a comunhão, entre o sacrifício da dignidade de quem não está alinhado e a fragilidade profundamente humana, como veículo do Amor, de reconstrução das relações feridas e tantas vezes destruídas, como as velhas muralhas de Jerusalém.
Para nós, esta escolha não é de agora, é de sempre. Desde Abraão que somos chamados à Aliança com Deus. Em Jesus esta escolha tornou-se mais que evidente: ou estamos do lado dos mais necessitados ou dos poderosos. E a evolução dos tempos não calou as perguntas que nos foram colocadas pelo Papa Leão XIV logo no início desta Encíclica. Que na verdade são as mesmas que o Papa Leão XIII se colocou no arranque da industrialização e que o levaram a escrever a Rerum Novarum (sobre as coisas novas), em 1891, dando o pontapé de saída para a Doutrina social da Igreja. Já então, perante a utilização do homem como mera ferramenta para se obter mais lucro – quem não se lembra do filme Tempos Modernos, de Charlie Chaplin? – a Igreja examinava a realidade, confrontava-a com o Evangelho e apontava novos caminhos. E esse caminho, o direito ao salário justo, o primado da pessoa sobre o lucro, o direito ao associativismo (que deram origem aos sindicatos) foram depois atualizados por cada um dos Papas que lhe sucederam, permitindo que a Doutrina social da Igreja surja, na sua forma mais autêntica, não como um manual de princípios e normas a aplicar, mas um caminho de discernimento comunitário. Ela nasce do encontro entre a verdade eterna do Evangelho e as questões da história; deixa-se interrogar pelos sinais dos tempos; nutre-se dos contributos das ciências, das culturas e das experiências humanas. Assim, quando a dignidade dos irmãos é desfigurada, quando a política não responde aos dramas da humanidade, quando a economia se volta contra a pessoa ou a ciência ultrapassa os limites do seu método, a Igreja – com as outras confissões cristãs e os crentes de outras religiões – deve erguer a sua voz não para dominar, mas para servir a comunhão. Com esta compreensão, a Doutrina social torna-se uma teologia da comunhão na história; um lugar onde a Palavra, que se fez carne, continua a tornar-se diálogo, memória e profecia. (MH27) Questões que nos parecem hoje tão naturais quanto conquistas definitivas, como o primado da família, o Estado de Direito, os Direitos Humanos, a Paz, a Ecologia, o Bem Comum, a cultura do Encontro, foram todas plasmadas e discutidas e propostas pelos documentos papais neste âmbito da Doutrina social da Igreja. Todos os Papas (à exceção do Papa João Paulo I, que não teve tempo para o fazer) se debruçaram sobre os problemas sociais do seu tempo. Cada um, captando os desafios da sua época e interpretando as mudanças históricas a partir do Evangelho, fez emergir diferentes aspetos de um único património: a dignidade da pessoa, o valor do trabalho, a destinação universal dos bens, a solidariedade e a subsidiariedade, o cuidado da criação, a centralidade da paz e da fraternidade.(MH45)
Hoje, o desafio é outro. Somos levados a interrogar-nos sobre o grande estaleiro de obras da nossa época: o que estamos a construir? Enquanto o desenvolvimento tecnológico altera rapidamente linguagens, relações, instituições e formas de poder, nós, cristãos, podemos e devemos escolher em que projeto trabalhar, e com que estilo, para salvaguardar e valorizar a magnífica humanidade que recebemos como dom. Não se trata de uma escolha sobre o nosso futuro, mas sobre o presente, porque a inteligência artificial e as outras tecnologias emergentes fazem já parte do nosso quotidiano.(MH90) Hoje somos levados às velhas e a novas situações que nos pretendem fazer adormecer, não questionar, numa versão atualizada de pão e circo que nos mantém permanentemente entretidos de ecrã em ecrã até que deixemos de pensar para que outros possam pensar e decidir por nós. Hoje somos levados a ver apenas o que queremos, quando queremos e como queremos até que alguém nos conceda a ilusão que estamos a escolher o que querem que seja escolhido. Hoje, questões como a Verdade, a Liberdade e o Trabalho, navegam hoje em águas turbas, imersas numa tecnologia que não se consegue controlar porque não se sabe bem de onde vem, quem a orienta, com que intenção o faz, tornando-nos marionetas fáceis nas suas mãos. E quem não alinha é excluído sem dó nem piedade. Quem não tem o conhecimento ou o dinheiro ou a situação social ou o poder fica de fora, sente-se incapaz, é visto como incapaz, e a sua vida perde relevância numa sociedade que, cada vez mais, aprecia, valoriza e dá primazia à eficácia. Porque a técnica não tem alma, e quando se torna critério absoluto, determina quem é importante e quem é descartado. (MH 92) Esquecemos que o que salva o ser humano não é a autossuficiência aperfeiçoada, mas uma relação que liberta, uma comunhão que transforma. (MH 128).
De entre os muitos e significativos caminhos propostos pelo Papa Leão XIV, um sobressai: uma aliança educativa para a era digital. O caminho é tudo, menos fácil, pois os processos educativos requerem um tempo de maturação, de confronto com a realidade que vai além das aparências, e um caminho de paciência. A questão é fundamental, pois toda a tecnologia educa quem a utiliza. Educar para o uso da IA implica, portanto, educar para decidir quando e em que situações não a utilizar. A rapidez e a facilidade com que se obtém uma resposta ou uma síntese correm o risco de extinguir o desejo de colocar perguntas, o qual dá frutos só a longo prazo. Como escreve Platão, as coisas mais profundas e importantes só se aprendem depois de muito tempo e esforço, no empenho em discutir com os outros para “friccionar”, como numa pederneira, os conceitos e as experiências, até saltar em nós a centelha da compreensão. Devemos educar-nos ao jejum da IA e proteger os nossos jovens das promessas da máquina perfeita, daquela subtil sedução que parece tornar o pensamento humano inútil precisamente quando é mais necessário. (MH140). Ciente das dificuldades, mas apesar delas, a Igreja convida famílias, escolas, comunidades cristãs e instituições públicas a uma renovada aliança educativa. Ela concretiza-se quando os princípios fundamentais se traduzem em metas educativas: educar para a sobriedade e o sentido do limite; educar para o reconhecimento do direito do outro e de quem virá depois de nós a usufruir dos bens que nos são doados ou que o engenho humano disponibiliza; educar para a liberdade e a responsabilidade; educar para o sentido da transcendência e para o bem comum. A escola não é chamada a acompanhar a velocidade do mundo digital, mas a oferecer aquilo que o digital, por si só, não consegue: tempo partilhado para aprender e relações de confiança. (MH147)
Este texto já vai longo e, no entanto, sinto que apenas lhe arranhei a superfície. Esta encíclica é belíssima, e riquíssima. Lança um olhar verdadeiro sobre os tempos que vivemos, sem qualquer desespero, sem camuflar as preocupações, sem pretensões de impor soluções, mas determinado na procura de sermos e fazermos juntos. Aborda, naturalmente, todas as problemáticas que o ecossistema da inteligência artificial em que vivemos mergulhados nos inquietam. Mas recorda-nos, constantemente, que podemos viver num outro ecossistema de batizados, onde a comunhão, o amor, a partilha das fragilidades, nos fazem sentir de forma viva e perene o Amor de um Pai que nos acompanha desde sempre na reconstrução da Igreja e da sociedade. E que não estamos sozinhos nessa reconstrução porque vislumbramos grande parte da humanidade que procura permanecer humana e empenhar-se na construção da cidade da convivência e da paz. Dela, todos nós somos frequentemente artífices sem o saber e arquitetos descoordenados, capazes de gestos generosos, mas desprovidos duma visão de conjunto: trata-se de uma construção mais lenta, menos visível e espetacular, que aguarda ser melhor compreendida e mais coordenada, para se tornar compromisso consciente e articulado de cada comunidade, desde a família ao governo dos Estados e suas relações. É a este horizonte de empenho, a este estaleiro de esperança, que damos o nome de “civilização do amor”. (MH185).
Permitam-me um conselho. Leiam releiam e treleiam esta Magnifica Humanitas. Criemos grupos no WhatsApp e troquemos opiniões. Promovamos encontros olhos nos olhos para conversarmos e discutirmos e discordarmos do que aqui é escrito. Convidemos pessoas que normalmente não vemos nos bancos das nossas Igrejas, professores, estudantes, sindicalistas, trabalhadores, famílias, qualquer que seja a sua situação, para discutirmos, juntos, as imensas novidades desta Encíclica e sobretudo, para começarmos, juntos, a delinear e a calcorrear caminhos. Quando cheguei ao fim desta leitura, a sensação com que fiquei foi esquisita porque confirmou a que tinha com o Papa Francisco: nós, que nos queixávamos tanto do Vaticano e do Magistério e da hierarquia, percebemos que, afinal, temos dificuldade em acompanhar o seu passo, assim como o de muitos dos nossos bispos e sacerdotes. Estamos, na nossa Diocese, a preparar o Sínodo. E toda esta encíclica é profundamente sinodal: apela e conta com todos, todos, todos. Aproveitemos a oportunidade.


Muito obrigada por este mergulho na encíclica, fiquei com vontade de a ler. Sou agnóstica, mas também me interrogo sobre o grande estaleiro de obras da nossa época, e questiono o que estamos a construir.