Matrimónio e família: realidade(s) e desafios
Este é um trabalho de reflexão que foi feito a partir de um desafio que foi proposto ao SDPF do Porto. Reflete apenas a minha visão. Não a da equipa.
Matrimónio e família: realidade(s) e desafios
Se cada pessoa é um mundo, como escreveu Clarice Lispector, cada família encerra em si uma complexidade que em muito ultrapassa a de cada um dos elementos que a compõem. Não conhecemos duas famílias iguais, por muito idênticas que sejam as suas circunstâncias. Uma família é a colisão pacífica de dois mundos absolutamente distintos que, por amor, escolhem ultrapassar tudo o que os divide para viverem focados naquilo que os une. Graças a Deus, vivemos num tempo em que, contrariamente ao que aconteceu em grande parte da história, este “por amor”, esta dimensão afetiva, ultrapassa as dimensões antropológica e social da família. E o amor é a terra que escolhemos para semear, e é desta sementeira que brota o Reino de Deus. Que tem tudo a ver com a família, tal como todos a sonhamos.
Gaudium et Spes
Até meados do século passado, a família nunca foi fonte de problema, de grande preocupação nem na sociedade nem na Igreja. Pelo contrário: sempre foi tida e vista como o grande garante da estabilidade social e eclesial. Não admira, por isso, que logo no Proémio da Constituição Pastoral da Gaudium et Spes, apareça a expressão Família Humana. A família era, é, e acreditamos que sempre será, a referência nuclear de todas as pessoas, de todas as sociedades, em todas as circunstâncias.
No entanto, naquele documento, datado de dezembro de 1965, já se referenciavam algumas das preocupações que as mudanças sociais provocavam na alteração da família, tal como se conhecia desde sempre. Questões como o ateísmo, um certo endeusamento da liberdade individual, os atentados contra a vida e a dignidade, são problemáticas que então ganhavam um lugar cada vez mais evidente no olhar da Igreja sobre a realidade do mundo e que, até hoje, jamais a abandonaram. Apenas se acentuaram.
O Capítulo V deste Documento aborda claramente os desafios da família e do Sacramento que a origina e consolida: o Matrimónio. As aceleradas mudanças culturais, que são cada vez mais adversas à proposta da Igreja, as tensões entre tradição e modernidade num tempo em que se contesta fortemente tudo o que é relação de poder – estávamos a pouco tempo das violentas manifestações estudantis de maio de 1968 e do festival de Woodstock, em agosto de 1969 – provocam novos olhares sobre questões como a liberdade sexual, a moralidade, o compromisso conjugal, a fidelidade, e outros, tidos como de uma sociedade patriarcal. E a proposta da Igreja começa a ser vista, sobretudo pelos jovens, como anacrónica e desadequada.
“52. A família é como que uma escola de valorização humana. Para que esteja em condições de alcançar a plenitude da sua vida e missão, exige, porém, a benévola comunhão de almas e o comum acordo dos esposos, e a diligente cooperação dos pais na educação dos filhos. A presença ativa do pai contribui poderosamente para a formação destes; mas é preciso assegurar também a assistência ao lar por parte da mãe, da qual os filhos, sobretudo os mais pequenos, têm tanta necessidade; sem descurar, aliás, a legítima promoção social da mulher. Os filhos sejam educados de tal modo que, chegados à idade adulta, sejam capazes de seguir com inteira responsabilidade a sua vocação, incluindo a sagrada, e escolher um estado de vida; e, se casarem, possam constituir uma família própria, em condições morais, sociais e económicas favoráveis.”
Naquela época, de profunda convulsão pessoal e social, a exaltação da Gaudium et Spes ao valor da responsabilidade na paternidade, incentivando os casais a planear a família com discernimento, sujeitando-os implacavelmente à lei moral e, por isso, rejeitando perentoriamente os meios contracetivos, soou como uma ingerência inadmissível na liberdade individual e coletiva e, sobretudo, uma interferência abusiva na intimidade do casal. Ao longo desses anos, a desagregação da sociedade e da família acontecem ao mesmo tempo, o que era inevitável, dada a sua íntima ligação.
Familaris Consortio
O grande documento papal que se lhe seguiu no que à família diz respeito data de 1981, e foi escrito depois do Sínodo de 1980, dedicado á família. Nesse documento, denominado Familiaris Consortio e escrito pelo Papa João Paulo II – podemos ler que a Missão da família é formar uma comunidade de pessoas: cultivar amor, respeito, diálogo e doação mútua; abrir-se generosamente à vida, através da educação integral dos filhos e da valorização da paternidade e maternidade; participar no desenvolvimento da sociedade promovendo a justiça, a solidariedade e o bem comum; e, finalmente, participar na vida e missão da Igreja: ser “Igreja doméstica” e testemunhar Cristo no mundo. Quatro grandiosos desafios patentes num documento que aborda, enfrentando-os claramente, temas como divórcio, uniões irregulares, contraceção, aborto e crise de valores, enfatizando já a necessidade de acompanhamento pastoral, com misericórdia, mas com verdade. À reafirmação sem rodeios da doutrina, acrescenta-se a misericórdia, preparando o futuro.
Papa Bento XVI
Como não poderia deixar de ser, já que a família sempre foi uma preocupação constante da Igreja, também o Papa Bento XVI lançou o seu olhar sobre a família. Fê-lo logo no início do seu pontificado, no Discurso que proferiu na Basílica de São João de Latrão, em junho de 2005:
Matrimónio e família não são, na realidade, uma construção sociológica casual, fruto de particulares situações históricas e económicas. Ao contrário, a questão da justa relação entre o homem e a mulher afunda as suas raízes dentro da essência mais profunda do ser humano e pode encontrar a sua resposta só a partir dela. Isto é, não pode estar separada da pergunta antiga e sempre nova do homem sobre si mesmo: quem sou? O que é o homem? E esta pergunta, por sua vez, não pode ser separada da interrogação acerca de Deus: Deus existe? E quem é Deus? Qual é verdadeiramente o seu rosto? A resposta da Bíblia a estas duas interrogações é unitária e consequencial: o homem é criado à imagem de Deus, e o próprio Deus é amor. Por isso a vocação para o amor é aquilo que faz com que o homem seja a autêntica imagem de Deus: ele torna-se semelhante a Deus na medida em que ama.
Segundo o Papa Bento XVI, matrimónio e família não são, assim, uma mera construção sociológica, mas ontológica: Deus é amor e esse amor encontra o seu lugar no seio familiar. Tem problemas, tem dificuldades, tem desfasamentos entre a vida proposta pela Igreja e a vida vivida pelos casais, mas tudo se constrói e consolida no terreno do Amor de Deus.
Amoris Laetitia
Também o Papa Francisco se apressou a debruçar-se sobre as grandes questões da família, convocando, justamente, um Sínodo dos Bispos sobre a Família, em dois momentos - 2014 e 2015 – mas com o mesmo tema: “A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo.” O Papa Francisco não pretendia olhar fantasiosamente para o mundo, mas, pelo contrário, chamar a atenção para a realidade, forçando-nos a ver claramente para podermos agir eficazmente. E com a família não foi diferente.
Com o sínodo quis conhecer as realidades familiares no mundo inteiro, compreender os desafios contemporâneos: mudanças culturais, fragilidade dos vínculos, pobreza, migração, ideologia de gênero, secularização, para poder renovar a pastoral familiar e tornar a Igreja mais próxima das famílias. Debateram-se temas como o necessário acompanhamento pastoral numa Igreja que acolhe, integra e acompanha as famílias, focando na misericórdia e no discernimento. Perceberam-se as situações familiares difíceis como os divorciados recasados, os casais que vivem em união estável, a monoparentalidade, a migração, e a violência doméstica, reafirmando, para essas dificuldades, o ensinamento da Igreja, mas pedindo uma abordagem mais pastoral, baseada no discernimento caso a caso. Não hesitou a incentivar a atualização de questões antigas, como a preparação para o matrimónio, o reforço da formação para noivos e o fundamental acompanhamento dos primeiros anos de casamento, ou a extrema importância da educação dos filhos, que têm os pais como primeiros educadores, sem descurar questões ligadas à escola, aos meios de comunicação social e à cultura digital. E, finalmente, não se coibiu de abordar questões complexas como as que dizem respeito à moral e bioética, à dignidade da vida humana, abordando desafios como a contraceção, o aborto e a reprodução assistida.
Das conclusões deste sínodo nasceu a belíssima Exortação Apostólica Amoris Laeticia, um documento pastoral e cheio de esperança, profundamente marcado pela alegria, misericórdia e integração, que nos convida a todos a acolher, discernir e acompanhar. Este fundamental Documento descreve a família como um dom precioso de Deus e que, apesar dos seus desafios, a vida familiar continua a ser o espaço onde se aprende o amor verdadeiro, o perdão, a entrega e a fidelidade. Nele podemos ver claramente o Papa Francisco: realismo diante das dificuldades, reconhecimento das crises, tensões e transformações culturais que afetam a família, aos quais a Igreja é chamada a acolher, compreender e ajudar, não apenas a apontar falhas. A partir de uma profunda e atual reflexão sobre a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, esta Exortação apresenta-nos o quotidiano familiar como um lugar de santidade, onde a Paciência, o Perdão e o Cuidado mútuo constituem o eixo fulcral do amor conjugal.
Onde Estamos
Em suma, não é por falta de documentos belíssimos do Magistério que, hoje, vivemos as nossas dificuldades. Mas importa deitar um breve olhar, breve e analítico, sobre o ponto de onde começamos e onde nos encontramos: a Gaudium et Spes fornece os princípios doutrinais e antropológicos fundamentais sobre a família: dignidade do matrimónio, amor conjugal, abertura à vida, educação, papel na sociedade. A Amoris Laetitia retoma estes fundamentos e desenvolve-os pastoralmente, oferecendo um olhar mais realista sobre a complexidade da vida familiar, uma abordagem que integra e transforma as fragilidades através de uma maior profundidade na dimensão afetiva, fornecendo para além disso as diretrizes práticas para o acompanhamento pastoral.
É um longo caminho, convenhamos. Um caminho feito com um duplo olhar: por um lado, aquilo que é verdadeiramente importante – e a proposta matrimonial e familiar da Igreja é, sempre, verdadeiramente importante, qualquer que sejam as circunstâncias em que essa proposta aconteça – e, por outro, um largar dos aspetos doutrinais mais rígidos, escolhendo o afeto como forma de lidar e transformar a fragilidade que a todos nos habita. E este é o caminho.
Os Sinais dos Tempos
Como pudemos constatar através dos documentos apresentados, a Igreja, particularmente desde que passou a olhar para o que se passa lá fora, extramuros, sempre soube interpretar os sinais dos tempos. Não corre à frente dos tempos, não cavalga a novidade, mas também não anda a reboque. Não pode nem quer andar. É fiel. À sua História, à sua Tradição e, fundamentalmente, a Jesus, que também foi tido quase por todos como anacrónico. Não é o tempo que nos move, é o Espírito Santo. Por isso, o que a Igreja procura em cada época é justamente discernir onde está o Espírito Santo. Que, Graças a Deus, arranja sempre maneira de escapar aos muros que laboriosamente construímos para O encarcerar.
O Papa Francisco intuía-o na perfeição. O seu apelo à saída, a sujarmos os pés e as mãos, nasce da consciência que, hoje, o Espírito habita preferencialmente os que estão nas margens, longe da nossa autorreferencialidade e dos nossos modelos de perfeição. E os sinais que o Papa Leão XIV vai dando, cada vez menos timidamente, permitem-nos alimentar a esperança de que esse será o caminho que percorreremos, juntos, nos próximos tempos. E ter esperança é bom. É muito bom.
Até porque, convenhamos, a esperança não é presença constante nos nossos trabalhos. Permitam que dê como exemplo o trabalho desta equipa, apenas porque esta é aquela que conhecemos melhor. No entanto, acreditamos que as outras equipas diocesanas, tal como esta, de patamar intermédio, se debatam com problemáticas muito semelhantes à nossa.
Pastoral Familiar
Reunimo-nos numa periodicidade pelo menos mensal – muitas vezes mais – para pensarmos, discutirmos e, posteriormente, propormos medidas às equipas vicariais de ligação que, por sua vez, as farão chegar às equipas paroquiais, quando existem. Frequentemente, nas nossas discussões e apresentações concluímos que, dada a transversalidade desta equipa, é fundamental conversarmos com outras equipas como a da Catequese, por exemplo, com quem partilhamos – ou deveríamos partilhar – uma série de afinidades e interesses. Como eles próprios não reúnem todas as semanas, só daí a um mês ou dois – a correr bem – conseguimos encontrar a resposta às nossas solicitações, que serão partilhadas na seguinte reunião com os casais de ligação, que as farão chegar mais tarde às equipas paroquiais, quando elas existem. Ah: e não podemos esquecer que os assessores apenas reúnem à quinta-feira de manhã e que teremos de conseguir que alguém falte ao seu emprego para poder reunir com os assessores, recolher os seus contributos, para, posteriormente, em mais uma reunião, conseguirmos maneira de os incorporar nos trabalhos que já tínhamos proposto levar a cabo.
Dito assim, desta forma nua e crua, pode até parecer cómico. E seria cómico, se aqui não faltassem aqueles para quem trabalhamos: as pessoas. Quando o Papa Francisco falava em autorreferencialidade, era também a isto que se referia: parecemos hamsters, a rodar afincadamente, apressadamente, de nós para nós, sem chegar a lado nenhum. E nisto tudo são dois os problemas: trabalhamos afincadamente, e não chegamos a lado nenhum. Ou seja, trabalhamos muito, com enorme dedicação, mas trabalhamos mal. Porquê? Porque não chegamos às pessoas. E se não chegamos às pessoas...
As Pessoas
Neste ponto importa termos a coragem do Papa Francisco e perguntarmo-nos, com a clareza possível: queremos, efetivamente, chegar às pessoas? Para quê? O que queremos fazer com elas? O que lhes podemos propor? O que lhes temos nós, efetivamente, proposto?
Pensemos no que acontece em muitas das nossas paróquias. Quem nos procura fá-lo por dois motivos: ou para cumprir um qualquer preceito e somos pouco mais que cumpridores de serviços, ou procura consolo numa situação aguda de dor e sofrimento. Para os primeiros, temos o cartório aberto nos dias x das x às x horas. E para os segundos, o que temos para oferecer? Encontram os que sofrem, os que nos procuram, os que veem em nós o rosto do Pai Misericordioso essa misericórdia, esse colo, esse consolo? Quem nos procura encontra caminhos de amor que os possam conduzir ao desejo de conversão de vida, a uma relação mais íntima, verdadeira e transformadora com o Cristo que os espera? Em modos mais prosaicos: temos nós tempo e disponibilidade para as pessoas que precisam do nosso tempo e da nossa disponibilidade? Não temos. Nenhum de nós tem. E não é por falta de esforço, por falta de empenho, por falta de interesse e muito menos por falta de amor. É por falta de tempo, mesmo. Basta pensarmos a sério nos nossos. Quantas vezes deixamos os nossos mais novos ou os nossos mais velhos ao cuidado de terceiros para podermos participar numa reunião da Pastoral Familiar? Quantos dos nossos mais novos seguem as nossas pisadas dentro da Igreja? Quantos dos nossos mais novos vivem os sacramentos? E, permitamo-nos o amargo de boca da pergunta: será tudo responsabilidade dos novos tempos?
A Sinodalidade
Quem conhece a História da Igreja sabe que não é a primeira vez que temos de nos olhar com verdade para que nos possamos reformular. Não para sermos mais eficazes, mas para sermos mais felizes. E somos sempre mais felizes quando temos tempo e disponibilidade para nos deixarmos encontrar e tocar e mexer por dentro pelo Espírito Santo. Fizemo-lo logo no séc. V com o monaquismo, voltamos a fazê-lo na viragem do primeiro milénio a partir de Cluny, fizemo-lo várias outras vezes, e a boa notícia – porque a Igreja é Boa Notícia – é que estamos a fazê-lo desde 1962, desde o 2º Concílio do Vaticano. E as boas notícias não acabam aqui: o Papa Francisco, que tinha o olhar posto no céu, mas os pés bem assentes na terra, deu o mote para sermos uma forma de Igreja que nos é, paradoxalmente, tão constitutiva quanto estranha: a sinodalidade.
Retomemos o exercício que fizemos há pouco a propósito desta equipa da Pastoral Familiar, mas sinodalmente. Um grupo de pessoas, oriundas dos vários ministérios da Igreja Diocesana, reúne-se durante um fim de semana alargado para, a partir da escuta do Espírito e de uns aos outros, discernir o caminho a traçar na Diocese nos próximos quatro ou cinco anos. Desse encontro sairia uma visão global, esplanada num documento com metas concretas para serem aplicadas à medida de cada paróquia, à medida de cada movimento, numa complementaridade que nos justifica enquanto Corpo de uma Igreja que se quer viva e vivificante. Quanto tempo de ganharia! Quanta clareza se ganharia! Quanta disponibilidade se ganharia!
Mas não tenhamos ilusões, continuaria a falta o mais importante: as pessoas.
Acolher
Nesta época em que vivemos, de múltiplas propostas e profunda instabilidade pessoal e social, importa respondermos ao desafio do Papa Francisco e partirmos para as margens, mas importa também ficar na soleira da porta. Para que nos deixemos encontrar. Para isso, temos de ter a humildade de saber esperar, pacientemente, perscrutando o horizonte todos os dias, atentos àqueles que se afiguram ao longe. E temos de correr ao seu encontro, deixando a porta aberta, levando o manto, abraçando-os e cobrindo-os de beijos. De lhes manifestarmos a alegria de os termos de volta à nossa casa, seja por que motivo for, porque todos os motivos são bons para regressarmos à casa do Pai. E temos de resistir à tentação de lhes espetar com papéis e condições e requisitos e formações, mas deixarmos, genuinamente, transparecer a nossa alegria profunda por estarmos juntos de novo, por podermos caminhar juntos de novo. E o caminho há de dar tempo e vontade e curiosidade para desejarem que falemos das Escrituras, e há dar a ocasião de nos sentarmos e partilharmos a refeição, sem pressas, atiçando o calor do coração enquanto comemos o pão e bebemos o vinho. Para já, importa apenas acolher, acolher, acolher. Recolher as pedras que nos possam atirar em vez de as atirarmos nós para que possamos construir juntos, reparando as fendas e os corações doridos. Precisamos de reaprender o pequeno, o simples, o aparentemente insignificante, porque esquecemos muitas vezes que Deus habita no pequeno e no simples, e as coisas grandes pertencem ao desejo de grandeza dos homens, não ao desígnio de um Deus que se quis fazer pequeno, ajoelhado a escrever no pó da terra, para poder olhar nos olhos aqueles que não permitimos que se levantem.
Em Conclusão
Em suma, mesmo perante tantas realidades, ou sobretudo por causa da multiplicidade das realidades atuais com que se reveste a família, não temos nada de muito diferente a propor. Na verdade, consideramos que a família continua a ser o esteio da sociedade, consideramos que valores como a fidelidade e o compromisso continuam a ser plenamente atuais, e sobretudo consideramos que é na família que se descobrem os fundamentos que nos permitem ser verdadeiramente felizes. E é justamente aí que nós, enquanto Pastoral Familiar, teremos de nos preparar melhor. Porque, acreditando nós que é na família que se descobre como se pode ser feliz com os outros na partilha, na alegria, na resiliência, na entrega e nas dificuldades, e sabendo nós como muitas pessoas, sobretudo quando ainda são novos, fazem, ilusoriamente ou não, outro tipo de escolhas, acreditamos que, cedo ou tarde, procurarão o que os faz verdadeiramente felizes. E, inevitavelmente, procurarão a estabilidade, procurarão a Igreja, procurarão o colo amoroso do Pai. Procurar-nos-ão para que lhes recordemos como o Pai nos ama e nos acolhe, sem limites, sem reservas, sem nos perguntar de onde vimos, mas propondo-nos apenas o caminho para O seguirmos, juntos. Procurar-nos-ão para recordarmos, juntos, que Deus É Amor. É um desafio tremendo, porque muitas vezes – demasiadas vezes! – esquecemo-nos que somos o Amor do Pai.
Mas, paradoxalmente, todo o processo é isento de complexidade: sinodalidade, regresso ao simples e misericórdia. Não é complicado. Basta confiar no Espírito.
Estamos preparados?


Zé, continuas com o condão de escrever na altura certa sobre as coisas que me habitam a mente. Tenho refletido muito sobre a família e tenho sido convidado pelas circunstâncias a viver o advento no espírito da igreja, com as suas reflexões, atenções e preocupações. Desconhecia estes documentos que, agora, tenciono ler. Obrigado pelas tuas palavras, trouxeram companhia no momento ideal.