memórias
Vivemos por camadas. Ou melhor, eu vivo por camadas. Em camadas. Vou acumulando as memórias das várias vidas vividas, os vários de mim em cada vida, empurrados pelo vento que sopra, como as folhas que caem em pleno outono e permanecem no solo, não varridas, para, seguindo o ciclo, contribuírem mais tarde para o próprio sustento da árvore de onde caíram. Assim são as minhas memórias. As que já caíram e que eu, porque não me quero separar delas, permito que permaneçam caídas, aos pés da minha alma, para que nunca sejam varridas e sejam, para sempre, parte de mim. Estas memórias, aquelas que gosto que permaneçam, são invariavelmente boas e, no entanto, dolorosas. É uma dor boa, que vem justamente do tão bom que foi, da impossibilidade de viver de novo, de voltar a sentir o êxtase da alegria imensa que senti quando as vivi. São memórias de pessoas. São sempre memórias de pessoas. São sempre olhos e mãos e sorrisos e conversas, intermináveis porque eternas, porque nunca se vergaram à ditadura da passagem do tempo. Já o sabia na altura, quando sentia que o tempo pairava, negando-se a avançar, deliciado com tanto imenso; E sei-o agora, quando as recordo, e o tempo continua sem avançar porque reconhece o imenso que transborda, ainda, apesar da distância, apesar do próprio tempo, porque as memórias, quando chamadas, são sempre o agora, são sempre hoje, são sempre vivas, sempre prestes a serem vivificadas, uma e outra vez.
São tão boas, essas memórias! Doem, é certo. Doem imenso, mas ainda bem que doem, porque essa dor é a prova provada que aconteceu, e em momento algum preferia que não existissem, porque a sua inexistência implicaria, com toda a certeza - uma certeza que se afirma e confirma na exata medida do tempo que passa - uma não vida, uma menor vida, uma vida imensamente mais pequena. Dói, mas desperta-me ainda o sorriso, porque a dor desta ausência apenas existe porque será sempre presença avassaladora.
De qualquer maneira, prefiro a dor suave e feliz destas memórias àquelas - que também abundam em mim - que são apenas dor dorida, dor magoada, que escolhem a sombra e nunca largaram o pior lado da vida, e nunca deixaram de ser medo, pavor, da repetição, do outra vez não, sinal perene da minha fragilidade que dita a impossibilidade de aguentar tudo de novo. Essas memórias farejam a intempérie e apressam-se a misturar-se com a seiva que me alimenta a alma, aprofundando a confusão e roubando-me o sossego e a inteireza. Também elas são quem eu sou: o sol e a sombra, o bom e o mau, o parcamente tudo, o imensamente nada.
Vivo em camadas. Sou camadas. Pergunto-me se alguma vez deixarei de ser camadas. Pergunto-me se alguma vez a inevitabilidade de ficar velho me permitirá o privilégio de recordar apenas as boas memórias. Tenho-as tido em catadupa nos últimos anos, é verdade, mas não apagam as antigas, as dolorosas, que persistem com uma inusitada teimosia, como lapas, como se me fosse imperioso recordar que a vida não é apenas sorrisos e abraços e deliciosas conversas à beira mar. Vou percebendo, esperançado, que à medida que o tempo avança vou receando menos a possibilidade de me deixar tomar por essas velhas, velhacas memórias, e que vai ficando um pouco tarde para me tornar amargo. De alguma maneira, a vida tem-me dado muitos mais motivos para agradecer que para lamentar. E mesmo quando perco - e, como todos nós, perco muitas vezes - tenho conseguido agarrar-me às boas memórias, que suavizam a perda e largam o azedume. E esse é também, parece-me, um bom indicador de felicidade.

