mundos
Temos falado várias vezes sobre direções e coordenações e trabalhos de equipa. Numa dessas conversas disse que sou um gestor de equilíbrios. E estou cada vez mais convencido que esse é o meu papel principal, quer na vida profissional quer na pessoal. Na realidade, no que diz respeito a gestão de equilíbrios, a profissão e a família não são assim tão diferentes. Quando temos a sorte e a felicidade de estarmos todos à volta da mesma mesa somos catorze pessoas, de idades que variam entre os 8 meses e os 83 anos e profissões tão diferentes como as dos médicos (a maioria) e a cozinha passando pela engenharia e a lida da casa. E mais duas cadelas, que também vão connosco para todo o lado. É muita gente, muita balbúrdia, muita conversa, alguma gritaria, muitas brincadeiras e guitarradas e cantorietas e animação. E muitas personalidades diferentes, todas elas fortes, e que se manifestam de maneira completamente diferente. O nosso papel enquanto pais e, agora, avós, é o de estarmos atentos a todos, aos seus sinais, aos seus silêncios, aos seus mútuos e calados incómodos e desagrados, como se de uma sinfonia se tratasse. Falar com um, escutar outro, dar lugar a que outro expresse a sua opinião - fazer com que a manifeste de forma verdadeira mas leal - de maneira a que, quando cada um for para as suas casas poderem ir mais leves, mais confiantes, mais felizes, e com vontade de regressar. Sem beliscarem o mais importante. O seu profundo sentido de pertença.
E a verdade é que a gestão familiar tem sido a minha maior escola de vida. Naturalmente, não gostamos todos do que todos fazem, não concordamos todos uns com os outros, não temos uma visão unívoca da vida e ainda assim nunca nos coibimos de partilhar a nossa opinião, com cuidado e respeito. Sabemo-nos uns dos outros, com todas as nossas singularidades, e essa é uma certeza que molda todas as nossas relações. É que, como nos sabemos uns dos outros, como sabemos que não vamos a lado nenhum, há sempre um cuidado particular em manter vias abertas, em não dizer nada que possa ser tido como definitivo, que possa marcar negativamente, de forma indelével, enquistando toda uma relação que não diz respeito apenas aos próprios mas a todos nós. E quando há o risco de isso acontecer, quando as vozes começam a soar mais alto, quando a coisa começa a ficar demasiado inclinada para um determinado lado, é quando se torna absolutamente fundamental que a nossa voz se faça ouvir para repor o equilíbrio, para que todos percebam que ninguém tem a razão toda e que, embora seja difícil, no calor da discussão, ouvir o que o outro tem a dizer, escutarmos torna-nos sempre mais ricos, nem que seja para que as nossas convicções se tornem mais firmes.
Repare-se como quase tudo isto, que vai acontecendo numa família grande como a minha ao longo de mais de trinta anos, é transportável para as equipas de trabalho. Também aí há vozes discordantes, também há silêncio incómodos, também há alegria e algazarra, também há personalidades fortes e convictas que a sua razão é a maior à volta da mesa. Também há cumplicidade de pares, também há filhos - embora se chamem projetos - que despertam a sensibilidade dos que os conceberam, também há a mesma necessidade de atenção, de escuta permanente, de leitura dos sinais, uns notórios outros impercetíveis, para que cada um sinta que é parte importante do todo e que é escutado, entendido, valorizado. Também é necessário que, por vezes, quando na algazarra ninguém se entende, que haja uma voz que faça ouvir e soe o mais serena possível e volta a colocar tudo no centro, com cuidado, para que ninguém se perca no caminho. E se a isto juntarmos a pertença - que, ao que me dizem, é rara, mas essa não é nada a minha experiência profissional - que faz com que cada um não queira senão estar onde está e a fazer o que está a fazer, temos, então, um modus operandi muito idêntico ao de uma família.
Se os meus filhos lessem o que eu escrevo diriam “que horror, comparar a nossa família com o trabalho”. Na realidade, eles têm uma concepção de trabalho muito diferente da minha. Eu gosto da pertença, do vestir da camisola, do não ter horas estanques para trabalhar e divertir. Eu gosto de trabalhar ao domingo, quando tenho normalmente mais tempo para pensar e programar, gosto de caminhar, ainda que por vezes em horário de trabalho, porque isso me ajuda a ressituar as questões e a encontrar soluções que estavam escondidas. Gosto de ter amigos no trabalho e de não ter grandes estados de espírito sobre se estou a trabalhar ou se me estou a divertir - muitas vezes são coincidentes. Gosto de trabalhar no mesmo sítio há mais de vinte anos, de me sentir sempre em família, e conhecer todos os cantos à casa - e vários cantos às várias casas - e de fazer parte da mobília e de nem colocar a questão de terminar os meus dias de trabalhador num qualquer outro local e até de ter a quase certeza que continuaria a trabalhar no mesmo sítio durante mais algum tempo mesmo que me saísse o euromilhões. Talvez tudo isso aconteça porque na verdade sou pago para fazer com pessoas extraordinárias aquilo que eu fazia de borla e com todo o gozo ao fim de semana, e isso faz de mim um tremendo privilegiado, mesmo dentro da instituição onde trabalho. Mas é o que é e não posso negar o que é. Não me posso fustigar e dizer que detesto o que faço e que por isso tenho de manter os dois mundos separados para que num eu possa ser feliz e noutro infeliz. Sou normalmente feliz em ambos os mundos e tenho momentos de infelicidade em ambos os mundos. É o que é. E ainda bem que assim é.

