muralha
“A cada um o seu pedaço da muralha.” Está logo no início da Magnifica Humanitas, no parágrafo 13. É uma expressão belíssima, que me parece ser muito relevante, particularmente neste momento da Igreja.
Quem faz parte de uma qualquer grande organização experimenta a insignificância. Sente que não conta muito, que não adianta de muito, que tanto se dá como se deu, que a sua visão e as suas propostas não encontram eco nem consequências. E facilmente desanima. Eu vejo isto muitas vezes nos meus filhos, particularmente nos que, na área da medicina ou do direito, exercem ou exerceram a sua profissão nos hospitais públicos ou nos organismos do Estado. Claro que já o ouvia há anos, ouvimos todos, nos vários órgãos de comunicação social. Mas é diferente quando são os nossos a contar, na primeira pessoa, as suas frustrações. E é diferente porque nós acompanhamos o seu processo desde o início, sabemos o quanto estudaram, o quanto batalharam, os passeios com os amigos e as diversões e a vida vivida de que abdicaram para conseguir a melhor nota para, em alguns casos, assistirem, impotentes, à manipulação, legal, mas imoral, de um qualquer lugar que estava à partida destinado a alguém com menor capacidade e currículo, mas com mais sonoro apelido. Face à sua revolta digo-lhes que tudo isso faz parte das suas dores de crescimento, e que o que verdadeiramente importa é fazerem o seu trabalho com espírito de missão. Mas, inevitavelmente, sob pena de passarem toda a vida frustrados, como que se rendem. Eles e todos. Fazem o seu trabalho, dedicam-se ao limite das suas capacidades, mas não vestem a camisola porque não têm uma camisola que seja sua para vestir. Sentem-se mais um. Apenas mais um, no meio de uma imensidão de excelentes profissionais que se sentem apenas mais um.
Em Igreja, na minha Igreja, até há pouco tempo, não era muito diferente. Nós sabemos como as coisas são. E como coisas deveriam ser. Conhecemos Jesus, conhecemos os Evangelhos, conhecemos Pedro e Paulo, e Constantino. Conhecemos a História da Igreja, conhecemos a Instituição, conhecemos os seus ramos internacionais, nacionais, diocesanos, paroquianos, locais, conhecemos toda a hierarquia, a forma como tudo funciona e como tudo deveria funcionar. Conhecemos as suas divisões, os Institutos e os Carismas, as ordens e as desordens. Conhecemos o Concílio Vaticano II, o ar livre que inspirou e as gavetas em que foi metido, conhecemos a pequenez dos jogos de poder, os medos, os receios, a falta de fé e conhecemos até, recentemente, a devastadora vergonha que desejaríamos nunca ter conhecido. Conhecemos as batalhas fratricidas pelos lugares de visibilidade, quer sejam nas procissões, nas direções dos coros ou nas participações nos ofertórios. Conhecemos isso tudo há uma imensidão de tempo, um tempo muito anterior ao nosso tempo, mas que tentamos, tantos de nós, que não passe deste tempo.
Os meus filhos nem sempre entendem porque é que continuo a ser Igreja. Sabem como contesto fortemente, e há muitos anos, muitas coisas que fazemos, a forma como as fazemos, o medo que temos de fazer diferente. Sabem que na Igreja que sonho – e que me atrevo a pensar que, se Jesus tivesse sonhado uma Igreja seria mais ou menos essa - têm lugar todas as pessoas que queiram fazer parte dela, qualquer que seja a sua orientação sexual, o seu género, a sua cor política, a sua circunstância, seja porque se sentem feridas e procuram o colo do Pai, seja porque se sentem gratos e agraciados e querem dar a conhecer e ser o colo do Pai. Apenas porque foi justamente isso o que fez Jesus: acolheu quem precisava e queria ser acolhido. O que eles não sabem, porque não o querem ler e aprender – e o mesmo acontece com muitos dos nossos catequistas, leitores, cantores e outros participantes das eucaristias, nas nossas paróquias e nas nossas dioceses - é que essa é também, mais coisa menos coisa, a Igreja sonhada pelos Papas João XXIII, Francisco e, acredito cada vez mais, Leão XIV. E por tantos e tantos de nós, anónimos, que estudamos estas coisas, que as procuramos fundamentar, que batalhamos todos os dias por uma Igreja que seja, cada vez mais, o rosto de Jesus.
Lembrei-me disso naquela frase do parágrafo 13 da Magnifica Humanitas. Este é o meu pedaço da muralha. É este cm da muralha da Igreja que sonho e na qual acredito que me compete não deixar desmoronar. Alturas houve, muitas, em que me senti quase sozinho a fazê-lo. Foi o tempo de João Paulo II, menos no de Bento XVI, muito menos no de Francisco. Agora sinto que há muitos pedaços de muralha a serem restaurados. Há podcasts e blogues e livros e conferências, e a sinodalidade, e uma série de conferências e debates e artigos de jornal, nacionais e internacionais, que vão despertando atenções, abrindo olhares, acolhendo dúvidas e apontando caminhos sempre novos de ser Igreja. Teólogos e teólogas e sacerdotes e bispos e leigos e leigas e pessoas dedicadas e atentas e com uma capacidade enorme, que me abrem horizontes sempre que as escuto, sempre que as leio, com quem aprendo sempre, todos os dias, que esta Igreja que sonhamos é possível e está cada vez mais perto. Este é o meu cm da muralha. Não desisto de cuidar dele, de escrever acerca dele, de falar dele aos meus filhos, nas minhas catequeses, ao meu pároco, na minha paróquia, aos meus miúdos, ainda que por vezes já torçam os olhares quando abro a boca. Não é muito. É ínfimo. Mas é o meu pedacinho da muralha. Daquela que, espero e desejo muito, venha a ser, cada vez mais, a Igreja de Jesus.

