OC2
Chego a OC2 e tenho um baque. Ninguém me preparou para ver o meu pai numa cama, de fralda, com as pernas finas como canetas fora do lençol. Estava de costas para a porta e eu já lá tinha passado mas não o tinha reconhecido. Chego-me à beira dele, esconde a cara e as lágrimas caem, incontidas. A realidade e a culpa afloram como uma chapada. Passam-me tantas coisas pela cabeça! Os relatos do Ica e do Nuno, que às tantas já me entravam por um ouvido e saiam, devidamente desvalorizados, por outro. As conversas dos meus colegas, e amigos, partilhando o que tinha acontecido com os seus pais, a maneira como os acompanhavam e que sempre me soaram demasiado distantes, tocando-me pela sua dor partilhada, mas ainda assim, lá longe. Até a partilha sofrida, dolorosa, da Isabel, quando ia tratar dos tios no hospital - e que eu, feito estúpido, me queixava do tempo que ela gastava com eles e não comigo.
Olho para as restantes 4 - agora 5, acabou de chegar mais uma - camas desta OC. Todos são velhos, todos serão pais e mães e avós e avôs de filhos e netos. Todos serão tios e amigos e companheiros. Todos terão histórias cheias de risos e choros e vida vivida recheada de gente com quem gargalhava e mutuamente se compadecia. O meu pai é apenas mais um. Eu sou apenas mais um, entre os que estão encostados às camas ou nos corredores. “Vai-te embora, filho, este não é lugar para ti”, diz a velhota duas camas à frente a um miúdo, presumo que seu neto. “É sim”, apetece-me dizer. Mas calo-me, claro. Não é altura para me armar em zorro.
À medida que vou vendo os enfermeiros e os médicos e os auxiliares, que se vão dedicando a todos, agora um, depois outro, regresso às conversas dos meus filhos e genros e noras médicos que, nos fins de semana bons, tenho lá em casa, à volta da mesa. E admiro-os ainda mais. Eu trabalho com miúdos, com vida, com futuro. Eles trabalham com dor, com morte, com medo do futuro. Quando há futuro! E aumenta o meu respeito. Não faço ideia como se vive assim, dia após dia. A não ser por missão. Não há dinheiro que pague a sua dedicação. Até porque, se alguma coisa choca aqui nesta OC2, não é o seu trabalho mas as condições em que trabalham: tenho a sensação que tudo precisa de obras por aqui, e ocorre-me que os PRRs desta vida seriam bem melhor empregues a melhorar as instalações, os equipamentos, e os ordenados desta gente toda do que nas rotundas que abundam por este país fora. O problema é que, assim como eu nunca tinha estado aqui, só aqui vimos quando tem de ser. E queremos sair a correr daqui para fora. E apagar da memória o que aqui vimos e sentimos.
Pergunto ao meu pai se sente dores. Acena-me que não. Apesar de tudo está bem melhor aqui que em casa, na sua cama, a contorcer-se de dores. Pelo menos por enquanto, que este - já o tinha dito o meu filho - não é um lugar para se viver. Nem morrer.
De qualquer maneira, estou feliz por estar aqui, junto dele. Ainda ontem dizia que, apesar de tudo, apesar de todas as histórias da nossa vida, apesar de todas as voltas, de tantas decisões certas e erradas, eu estou aqui, agora. E daqui a pouco vem a minha irmã. E amanhã o meu irmão e a Eva. Apesar de tudo, ou com tudo, nenhum de nós quer não vir aqui, não estar aqui, com o meu pai, não estar com a minha mãe. Nenhum de nós quer passar ao largo da dor, de estarmos juntos, de enfrentarmos juntos, de chorarmos juntos o que nos espera. E isso tem de significar alguma coisa. Em momento algum um de nós empurrou o que quer que seja para os outros: conversamos, concertamos, ajustamo-nos e às nossa vidas para que eles nunca estejam sozinhos. Estamos. Somos. Juntos. E que assim permaneçamos.
Hoje é Dia Internacional da Família. Haverá sítio melhor para estar hoje?

