relações
As pessoas fascinam-me sempre. Quer dizer. Nem são bem as pessoas, mas as relações entre as pessoas, isso é o que verdadeiramente me fascina. As pessoas são o que são: são quem são, são quem escolhem ser, são o que lhes deixam ser. E é mais ou menos comum que esta tripla variabilidade aconteça em momentos sucessivos, num mesmo dia, dependendo de cada uma das circunstâncias. Sobretudo quando somos novos e vivemos de acordo com uma série de normas escritas e não escritas, que nos vão ditando os comportamentos mais adequados, a melhor escolha de palavras, a postura mais indicada para passar uma determinada mensagem. Uma das coisas maravilhosas de irmos envelhecendo, é que nos vamos ficando progressivamente nas tintas para estas coisas. Mas envelhecer leva tempo, já dizia La Palisse.
Uma das minhas filhas trabalhava num setor político internacional altamente competitivo. E contava-me que, desde que colocava o pé fora da porta de casa, tudo era rigorosamente medido, meticulosamente calculado, um meio para atingir um determinado fim. Um convite para um café nunca era apenas um convite para um café, um percurso de uma sala para outra nunca era em vão, e até uma viagem de elevador era selecionada em função do tempo e da companhia, porque constituía uma rara oportunidade de conversar a sós com alguém. Não admira, por isso, que a minha filha me tivesse dito, na altura, que precisava mesmo de viver sozinha para ter um lugar seguro onde, no final de cada dia, pudesse ser apenas ela. E que se cansasse dessa vida em pouco tempo.
Mais ou menos isto acontece com todos nós. O processo de educação e de socialização é justamente para nos ir limando arestas por forma a conseguirmos viver civilizadamente uns com os outros. Portanto, até aí, tudo bem. O problema é quando exageramos na tentativa de normalização, nossa e dos outros, ao ponto de passarmos a reagir mal ao que é diferente. E o problema é maior ainda quando transpomos essa normatividade e consequente reação à diferença para as nossas relações pessoais que, supostamente, deveriam existir livres de amarras. Quando trabalhamos numa organização, por exemplo, é natural e necessário que assumamos uma série de comportamentos que correspondam à assunção de um evidente ou tácito código de conduta. Um professor dificilmente poderá dar aulas de sunga, chanatas e uma cerveja na mão. Ou um bancário nos atenderá de calções, camisa havaiana aberta no peito e pau de gelado ao canto da boca. Mas já é expectável - e saudável - que, terminado o expediente, essa mesma pessoa vista essa mesma indumentária - ou qualquer outra - no espaço e com as pessoas que lhe são mais próximas. É bom, faz-nos imensamente bem, é verdadeiramente libertador, quando temos alguém com quem, na nossa vida, o à vontade seja mesmo à vontadinha.
Os meus dias anteriores foram passados em Lisboa. A propósito de uma série de excelentes conferências, durante as quais aprendi imenso. São momentos preciosos, em que podemos parar para pensar e trabalhar, fugindo à ditadura da pressa e dos horários. Mas são muitíssimo mais que isso. Porque não fui sozinho, e assim que terminava o trabalho, porque estávamos todos longe de casa, íamos jantar juntos.
São pessoas com quem trabalho há imensos anos. Pessoas cuja competência profissional, social e afetiva - na área da educação o bom equilíbrio entre estas três vertentes atestam a excelência de um profissional - admiro profundamente, com quem tenho já memórias construídas e partilhadas de conversas que nos fazem crescer juntos e sermos, cada vez mais, uns dos outros. Não eram, portanto, meros colegas (meu Deus, como detesto este termo!), o que tornou tudo ainda melhor porque mais genuíno. No final de cada dia, fisicamente cansativo e intelectualmente esgotante, as nossas conversas, brincadeiras e gargalhadas enquanto íamos, estávamos e vínhamos do restaurante, constituíram uma daquelas belíssimas memórias que cumprem o “nós” que tantas vezes procuramos e tão poucas vezes encontramos. É sempre espantosamente bom quando temos a oportunidade de chegarmos ao fim de um acontecimento marcados pela partilha das boas memórias e pela deliciosa inevitabilidade de a elas regressarmos várias vezes, calculo eu que sentados à volta de uma mesa por entre gargalhadas e a alegria contagiante que nos caracteriza.
Quando as pessoas com quem trabalhamos são boas pessoas, quando temos o privilégio de sermos muito mais que meros “colegas”, os processos de team building são tão naturais quanto o nosso imenso prazer em estarmos juntos. Ao longo desta semana nenhum de nós precisou de qualquer outra coisa que não fosse essa mesma vontade absolutamente natural, absolutamente genuína de, no final de cada dia, podermos estar juntos. Essa é que é a verdadeira argamassa que mantém sólida uma qualquer organização: sabermos quem somos, gostarmos de quem cada um é, reconhecermo-nos nos dons e fragilidades de cada um, e sabermos que não é de competição que se trata, mas de confiança, de caminho, de construção de boas memórias, seja em ambiente de trabalho, seja em ambiente de descontração. Que quando é para trabalhar, trabalhamos como ninguém, e quando é para rir, rimos como ninguém. Simplesmente porque confiamos e nos reconhecemos uns nos outros. Sem agendas escondidas, sem nada na manga, apenas com a absoluta naturalidade de quem cada um é.
É por isso que sempre achei as relações entre as pessoas ainda mais interessantes que as próprias pessoas. Porque nós na vida dos outros e os outros na nossa vida ou acrescentamos ou roubamos. E quando temos a extraordinária felicidade de trabalhar e viver com quem nos acrescenta, podemo-nos saber, de consciência plena, abençoados por Deus. E esta semana fomo-lo, de facto. Por isso a recordaremos para sempre. à volta de uma mesa, por entre risos e gargalhadas.

