sonhei-o
Sonhei-o. Outra vez. Esta noite. Tenho-o sonhado todas as noites desde que morreu. Umas vezes trazendo à memória cenas que efetivamente aconteceram. Outras, no meio de cenas estapafúrdias, misturando acontecimentos e cenários e pessoas que não têm nada a ver com a realidade alguma vez vivida. E tenho acordado, invariavelmente, com o meu pai na memória. Sobretudo os últimos momentos em que o vi, mais ou menos consciente da minha presença, a esconder as lágrimas sob a cortina azul do hospital, torcendo-se de dor.
Não sei. Francamente, não sei. Há imensa coisa que ainda não sei. Que ainda não tenho a certeza. Que não sei se alguma vez a terei. Não tenho a certeza se fiz bem em ir vê-lo ao hospital naquela tarde. Não tenho a certeza se lhe fiz bem ao ir vê-lo ao hospital naquela tarde. Não tenho a certeza se fui mais por mim, para me serenar, e se não o agitei ainda mais. Não sei. Não tenho a certeza. A sensação que tenho é que foi tudo demasiado rápido. Demasiado inesperado. Que não me deu tempo para nada, apesar de o ter acompanhado de perto desde dezembro de 2024, quando descobrimos a sua doença. Não sei se ter tido mais tempo adiantaria de alguma coisa. Se ter tido mais certeza que aquela tarde seria a última vez que o via adiantaria de alguma coisa. Se aproveitaria para me despedir convenientemente. Se deveria ter pegado nele e levá-lo para casa, para morrer no nosso meio e não naquele sítio que é não é bom para se morrer. Não sei. Não sei tanta coisa!
Somos pequenos. Eu sou pequeno. Desde as 7:15 de domingo, quando soube que o meu pai morreu, que não conduzo nada. Que me deixo ir. Que reajo ao que é necessário, meio entorpecido, como uma marioneta, alguém que é manietado pelo fio dos acontecimentos. Falar com os irmãos, ir a casa da mãe para lhe comunicar, abraçar e chorar, hospital, funerária, coveiro, família, amigos, escolher roupa e foto, abraçar, chorar, cumprimentar, fazer conversa e sala, repousar no colo dos amigos, rindo de tudo e de nada, voltar a cumprimentar, a abraçar, a chorar, a fazer sala, pegar no caixão, missa, pegar no caixão, enterrar, regressar a casa. Fiz isso tudo quase automaticamente, sem grande consciência do que me estava a acontecer, deixando-me ir, deixando-me arrastar, deixando-me ser conduzido. Sou pequeno. Somos pequenos. Perante a morte, todos somos pequenos. Graças a Deus!
Diz-se que é nestas alturas que conhecemos os amigos. Francamente, nesta altura da vida já não precisava deste momento para saber quem são os amigos. Quem me ama. Quem está comigo. Quem, mesmo não conversando todos os dias, não estando todos os dias, não partilhando todos os dias, fez questão de estar comigo, de me abraçar, de me enviar uma mensagem, de me fazer sentir acompanhado. E amado. Sempre me disse - e sempre o fiz saber - que quando algo deste género me acontecesse ninguém haveria de saber. Que me fecharia em copas. Que viveria a dor o mais sozinho possível. Hesitei muito, por isso, em enviar a mensagem a quem sabia que partilharia a minha dor. Não consegui não enviar. Não quis não enviar. Não me pareceu justo para quem me ama, para quem caminha comigo, para quem reza e chora e ri comigo, que os mantivesse de fora. Recordava-me da voz da Ju, que me disse várias vezes, naquela altura em que bati mal, que isolar-me na dor era uma tremenda forma de ser egoísta, que estava a roubar a quem me ama a oportunidade de me amar. E de me sentir amado. Em boa hora a ouvi. O colo de quem nos ama é o colo do Pai. Negar-me ao seu amor, é negar-me ao amor do Pai. Não me neguei. Entreguei-me.
Sonhei o meu pai. Outra vez. Esta noite. Conhecendo-me, sei que não foi a última vez. Há, ainda, muita coisa que desconheço, que não consegui ainda ler em mim, uma amálgama de pensamentos e sentimentos tão envolta em névoa que não consegui ainda interpretar, da qual não consigo ainda falar. Ou escrever. A narrativa, que procuro sempre, está ainda longe de fazer grande sentido. E esse é um caminho que leva tempo. Muito tempo. Mas tenho a segurança dos meus, a sabedoria dos meus, a presença serena, sensata, constante, sempre atenta, sempre disponível, dos meus. Que sabem estar, sabem cuidar, sabem vigiar amorosamente, respeitando o meu tempo e o meu percurso. Sabem amar. E amar é tudo o que vale a pena. E deixarmo-nos amar é tudo o que vale a pena. É só o que vale a pena. Tudo o resto acaba por se esfumar.


Os meus sentimentos.
Só quero enviar-te um abraço e dizer-te que és um ser humano incrível!