velho do Restelo
Ocupei uma parte significa dos últimos tempos em formações sobre a IA. Irá ser, sem dúvida alguma, uma parte importante do nosso futuro enquanto educadores. E a sensação é que andamos todos mais ou menos às apalpadelas a tentar perceber de que maneira iremos encaixar na IA. Porque a verdade é que esta tecnologia já cá está, já faz parte do quotidiano de muitos dos nossos alunos, e nós, os adultos, é que andamos a correr atrás do prejuízo. Só podia ser assim. Os alunos estão a arrancar nas suas escolhas de como fazer. Nós temos de encaixar a tecnologia no que já fazemos sem, no entanto, cairmos na tentação de desfazer tudo como se a nossa forma de fazer - a nossa vida profissional até aqui? - não valesse nada. Não é assim. Não pode ser assim. Então a arte do difícil está no equilíbrio. Não podemos ficar de fora do mundo tecnológico mas não podemos render-nos irracionalmente ao mundo tecnológico. E a questão nem é o medo de sermos substituídos por máquinas.
Na faculdade tive um professor apenas durante uma aula. A primeira. E, para mim, a última. Sabíamos que a única fonte de estudo daquela cadeira seria o seu livro, o que era mais ou menos comum mas, ainda hoje para mim, muito esquisito. Mas não era o pior: assim que começou a aula, vi que a única coisa que ele fazia era ler o seu livro. Assim, sem tirar nem por, sem comentários, sem apartes, sem complementos: chegava, abria o livro, e lia. Absolutamente nada mais a não ser ler em voz alta o seu livro. Nunca mais voltei àquela aula - privilégios da faculdade noturna, em que, sendo trabalhador estudante, não tinha de ir às aulas todas - e fiz a cadeira sem dificuldade porque apenas tinha de fazer o que ele fazia: ler. Um professor assim merece ser substituído, quer seja por outro professor, quer ser pela IA. Ambos fazem melhor que ele. Então, a essência não passa por aí, mas pelo oposto. Nenhum dos professores de que nos recordamos positivamente ao longo da nossa carreira estudantil é passível de ser substituído pela IA. Nenhum. Porque o que recordamos deles é, invariavelmente, a relação, não o conhecimento. E mesmo quando é, aparentemente, o conhecimento, é a forma empolgada, apaixonada, testemunhal, que transmitiam o conhecimento. E isso é sabedoria, é paixão, é autenticidade, é vida, não é apenas conhecimento.
No meu caso, acresce ainda outro fator: eu não gosto particularmente da IA. E a IA deixa-me irritado. Na série de formações que fiz, passado o Ahhhh inicial, percebi que, provavelmente, a irei utilizar como uma fonte de pesquisa mais avançada que o Google - que uso como antes usava a biblioteca - mas que dificilmente permitirei que ela produza o que quer que seja por mim. Pelo menos enquanto a IA não arrumar a cozinha ou puser o lixo lá fora (isso é que era!). Porque a verdade é que eu gosto de produzir. Eu gosto de escrever, gosto de fazer as apresentações, gosto de fazer os filmes, de escolher as palavras e as imagens e a música. A verdade é que, na esmagadora maioria das vezes, sinto muito mais gozo no processo que no resultado final. Porque é aí que eu aprendo: ao ter de escolher, entre o imenso que leio, o que coloco; ao ter de escolher, por entre as imagens - e se são fotos, passo horas, porque recordo e revivo pessoas e momentos - quais as que coloco, as músicas que prefiro e que entendo que melhor se adequam ao fim em causa. É em volta da mesa, a descobrirmos e a discutirmos ideias e ao conciliarmos maneiras tão diferentes de pensar e de fazer, algumas delas dificilmente imagináveis para nós, mas que por isso mesmo produzem resultados que nunca atingiríamos sozinhos. E não me parece nada que vá delegar esse deliciosamente rico processo de aprendizagem em nome de um resultado final mais rápido e eventualmente, apenas eventualmente, melhor. E a IA é, só, resultado final. É a fast food do conhecimento. E quem gosta de cozinhar sabe que o prazer está, para além do ato em si de cozinhar, na expectativa, à medida que pensamos o que cozinhar, que escolhemos os ingredientes, que pomos a mesa, que recebemos as pessoas, de as vermos a deliciarem-se com o que, na nossa arte e engenho, cozinhamos para eles. É serviço, é tempo, é amor, não é resultado final. E, no meu trabalho, aquilo que eu produzo, nas minhas imensas limitações, também passa muito por aqui: serviço, tempo, dedicação, alguma arte, mas, fundamentalmente, amor.
Por isso, sim, irei pesquisar, irei aprender, terei acesso a fontes de dados que antes seriam inimagináveis, justamente como aconteceu com os Googles desta vida, que me pouparam imenso tempo - sem, contudo, me impedirem o prazer do som e do cheiro de um livro à medida que o folheamos.
E isto tem uma implicação. Clara. Pela primeira vez na minha vida estou a reservar o meu lugar do lado dos velhos do Restelo. Pela primeira vez na minha vida, não me parece que valha a pena mergulhar na cabeça no último grito da tecnologia. E não, não é por preguiça de aprender - continuo a adorar aprender. É porque, pela primeira vez, a IA permite que o que sai de mim possa não ter nada de mim lá dentro, a não ser na mestria do prompt que, convenhamos, é um downgrade abismal na arte e engenho da produção humana. É porque, pela primeira vez, instituiu-se o copy-paste mais sofisticado como legitimação do que, ilusoriamente, pensamos que produzimos. É porque, se a IA não cria, apenas reproduz, ao delegar nela o resultado final também eu - e a minha preguiça - me limitaria a reproduzir, sem criar. E isso até pode dar um resultado final aparentemente mais bonito, mas nunca será mais rico. E, finalmente, é porque não acredito - nunca acreditei - que o resultado final valha mais que o processo. A não ser por uma questão de vaidade. Mas mesmo aí é uma vaidade enganada e enganadora, porque lá no fundo, saberia que não fui bem eu que fiz aquilo. No fundo, é uma questão de filosofia de vida. Chegado a esta altura da vida, prefiro a autenticidade das minhas limitações à incutida ilusão da minha sapiência. E a minha experiência é que aquilo que os miúdos que temos diante de nós procuram, aquilo que os marca, é isso mesmo: autenticidade. O resto é mera roupagem.

