Vittorio Messori
Leio que morreu Vittorio Messori. Um dos responsáveis pela maneira como vivo a fé em Jesus Cristo.
Sou um católico mais ou menos tardio, que chegou à fé por meios não muito usuais. Na minha família não se falava nem se vivia essas coisas e foi preciso que uma rapariga interrompesse um dos nossos jogos de futebol passando pelo meio da rua onde jogávamos para acontecer Deus na minha vida. Essa rapariga ia cantar a uma capela que se iria inaugurar ali perto, e eu, porque era gira, meti conversa com ela, e nessa capela descobri todo um mundo de partilha comunitária que na altura me era completamente desconhecido. Para mim, foi o princípio de tudo. Tinha cerca de 15 anos e - como hoje - gostava muito de ler e, à falta da catequese convencional, percebi que precisava de aprender quem era aquele Jesus que me cativava daquela maneira. Comprei o Hipóteses sobre Jesus, do Vittorio Messori, que me deu uma das minhas maiores características na fé: a vontade de me capacitar para lutar pelo Jesus no qual acredito. Nessa comunidade da capela havia uma velha catequista que tinha um importante ascendente sobre a malta nova e que, porque não gostou nada que eu lesse aquele livro, começou a discutir comigo dizendo que sobre Jesus não há nenhuma hipótese a colocar porque não há nada para discutir: é Filho de Deus e isso encerra qualquer discussão. E que eu, ao levar aquele livro para a capela, estava a fazer uma afronta a toda a comunidade. Com a minha personalidade, foi o empurrão que me faltava para começar a levar a fé mais a sério. Comecei a estudar, comecei a aprender, comecei a alicerçar a minha fé também racionalmente para a poder defender convenientemente, sobretudo dentro da Igreja, sobretudo junto daqueles que transmitem uma imagem de um deus dominador, castrador e autoritário, que nada tem a ver com o Pai Amoroso que Jesus me tinha revelado. Na realidade, foi o primeiro passo para mergulhar na fé e me ir apaixonando à medida que aprofundava o estudo e ia transmitindo aquilo que ia aprendendo.
Não sabemos nunca até onde poderá ir o que dizemos, o que escrevemos, o que fazemos. Não sabemos nunca as reais e efetivas implicações das palavras que deitamos pela boca fora, umas vezes conscientes disso, noutras nem tanto. E quando percebemos que o que sai de nós pode ter implicações efetivas na vida dos outros, assustamo-nos. Eu, pelo menos, assusto-me. Imenso. Não quero essa responsabilidade. Mas tenho essa responsabilidade. Logo, tenho de me recordar sempre que tenho essa responsabilidade. E que tenho de a assumir. Quando um miúdo, há pouco tempo, em Taizé, me disse “Zé, lembras-te do que me disseste há cinco anos, aqui mesmo em Taizé?” eu tremi. Não fazia a mínima ideia do que lhe tinha dito, e fazia menos intenção que ele alguma vez recordasse o que eu lhe dissera. Sei que lhe disse logo que o que eu digo não é para ser recordado, muito menos ao fim de cinco anos, que nada do que lhe possa ter dito tem essa importância. Mas a verdade é que pode ter. E, pelo desenrolar da conversa, percebi que teve mesmo essa importância. E fiquei assustado. Mas não há volta a dar: eu sou caminho para os outros. Mas que caminho?
Há algumas semanas, num dos testemunhos que volta e meia dou aos nossos miúdos e lhes conto a história daquela miúda que irrompeu pelo nosso jogo de futebol, um dos miúdos perguntou-se se eu achava que, se eu não a tivesse seguido, Deus entraria na minha vida de uma qualquer outra maneira. Respondi-lhe que acredito que sim. Que Deus nos ama a todos da mesma maneira - não acredito em Espíritos Santos de primeira e de segunda - e nos procura a todos constatemente, nas mais variadas oportunidades. E que todos nós vamos tendo pessoas e circunstâncias e situações que, anos depois, percebemos que foram absolutamente decisivas na nossa vida. E que, possivelmente, seria Deus que nos procura através delas. E que é a nossa resposta a cada uma dessas pessoas, circunstâncias e situações que nos vai definindo o caminho. Deus nunca cessa de nos procurar. E nós nunca cessamos de precisar de responder. E muitas vezes, é apenas isso que nos separa. E acabei a falar do Gusto àquela turma. O Gusto era uma amigo que estava lá, a jogar bola connosco, que também viu a miúda, e escolheu ficar a jogar à bola. A determinada altura a vida meteu-se e perdemo-nos o rasto. Reencontramo-nos anos mais tarde, em lados opostos da vida, pouco tempo antes de ele morrer de sida. Ele que, como tantos amigos meus de infância no bairro, tinha vivido uma vida agarrado às drogas e ao submundo que elas implicam. quer isto dizer que morreu porque ficou a jogar à bola? Claro que não. Quer isto dizer que Deus me ama mais a mim? Claro que não. Quer isto dizer que o Espírito Santo que me habita é mais forte? Claro que não. Quer apenas dizer que ao longo da vida fazemos escolhas e vivemos com elas. E que, em muitas delas, é Deus quem nos procura, nos outros, através dos outros, dando-nos uma e outra vez a oportunidade de redefinirmos o nosso caminho.
A história da nossa vida está cheia de acontecimentos, de pessoas, de situações, de conversas e descobertas. Resulta das pequenas escolhas que vamos fazendo, umas vezes mais livres, outras mais condicionados, mas que são sempre escolhas. Mesmo quando não reajo, quando calo, quando não emito qualquer opinião, essa é uma escolha que estou a fazer, que terá, de uma maneira ou outra, consequências, que irá, de uma maneira ou outra, definindo quem vou sendo. Na história da minha vida, aquela miúda, aquela catequista, o Vittorio Messori têm um lugar especial. Quanto mais não seja porque solicitaram de mim uma resposta que se revelou decisiva para quem eu sou hoje. A verdade é que nos devemos perguntar sempre quem permitimos que marque a nossa vida. E da mesma maneira, que marca deixamos nos outros. Porque essa é uma verdade inapelável, inevitável: nós marcamo-nos mutuamente, o que fazermos, o que dizemos, o que escrevemos, pode ser um princípio de caminho para alguém que, algures, sem que o saibamos, nos lê, nos ouve, nos vê. e pode ser um fim de caminho. Ou o motivo que ansiava para mudar de rumo.
E essa é uma responsabilidade tremenda.
Li hoje que Vittorio Messori morreu. De alguma maneira, estávamos ligados. Por isso, a sua morte não me é indiferente. E isso é bonito.

