Vizinhos
Quando vi na internet pensei que era mais uma daquelas coisas da IA: um magote de pessoas africanas chegadas do mar a correr, em fila, como se se tratasse de um Black Friday qualquer. Palavra em como foi a primeira coisa que me veio à cabeça. Depois percebi que era bem mais que isso, e os serviços noticiosos apressaram-se a conquistar a minha atenção: o impensável estava a acontecer nos mais ou menos longínquos - mas para nós traumáticos- idos de Ceuta.
Lembrei-me logo de um amigo que há muitos anos disse que, quando os africanos perceberem que são muito mais que nós e não temos maneira de os impedir, virão por aí acima por sua conta e risco, e invadir-nos-ão. Já na altura eu encolhi os ombros e não dei grande sentido ao que ele disse. Por um lado, naquela altura - eu ainda era novo! - era inimaginável que uma coisa dessas acontecesse. Por outro, pensei que mesmo que eles o fizessem não nos custaria assim tanto abdicarmos de algum do nosso conforto para que outros possam ter um pouco mais nas suas vidas. Uma convicção que confirmei quando, muitos anos mais tarde, estive um mês em Quelimane e pude constatar como somos privilegiados.
Mas confesso que fiquei apreensivo ao ver aquelas imagens: não me parece que aquela maneira de chegar seja a melhor para ninguém. Francamente, não me assusta qualquer tipo de acolhimento de migrantes. Deve ser regularizado, claro, para segurança de todos, a começar pela sua. Estando regularizados terão acesso ao de melhor que tem a nossa civilização, sobretudo no nosso país que, apesar do que se diz à boca cheia, tem uma boa política pública de saúde e educação, que me parece ser o principal motivo dos imigrantes que vêm em busca de trabalho. Conheço bastantes porque trabalho com os seus filhos, e não são melhores nem piores que nós, são pessoas com os seus hábitos e culturas que requerem uma necessidade de mútuo conhecimento e posterior ajustamento. Não conheço pessoalmente nenhum que não tenha vindo para trabalhar e colocar os seus filhos na escola, garantindo-lhes um futuro que seria impossível de alcançar se não tivessem migrado. São, por isso, pais e mães muito atentos e preocupados com o percurso escolar dos seus filhos. Nem todos ficam por cá, alguns ao fim de algum tempo vão para França - particularmente se oriundos de países muçulmanos francófonos - ou outros países europeus, onde se juntam a familiares. Mas muitos outros permanecem, e já temos miúdos que se aproximam a passos largos do ensino superior. Chegam-nos quase sempre meio assustados, mas rapidamente se sentem bem acolhidos e têm o RAÍZ como um espaço seguro para si e para os seus. E isso deixa-nos verdadeiramente felizes.
Nesta altura muita gente que conheço vai de férias para fora. E quanto mais exótico o país mais se vangloriam disso. A maior parte deles escolhe uma praia paradisíaca ou então, se for mais aventureiro, uma estância qualquer em África. Quando digo que não saí de cá, é comum ouvir que dessa maneira não conheço o mundo nem as outras realidades. Normalmente eu concordo, porque é verdade, e não refuto a acusação. Mas às vezes pergunto-me se gostaria de passar quinze dias entrincheirado numa reserva qualquer da América do Sul ou de África e que mundo ficaria a conhecer a partir do interior das suas muralhas. Claro que isto não vale para todos e viajar é muito importante para abrir horizontes mentais e culturais e se não me desse a preguiça de perder preciosas horas nos aeroportos eu próprio o faria de bom grado. Mas dificilmente me veriam enfiado a apanhar banhos de sol num resort qualquer ou encatrafiado num jipe para ver macacos ou elefantes. Ainda se fosse Nova Iorque ou Tóquio…
Mas acho sempre muito curioso que aqueles que vão para aqueles lugares paradisíacos e aventureiros sejam os primeiros a evitar os lugares onde os imigrantes habitam, ainda que fiquem no centro das nossas cidades, ou fiquem chocados quando veem muçulmanos a rezar no meio das nossas praças. A sensação que fica - e é apenas uma sensação - é que parece que ir lá de visita é muito bom, porque dá cultura, é muito giro e isso tudo, mas na condição de eles permanecerem lá, que nós não gostamos de misturas. Assim como assim, também vamos ao Jardim Zoológico mas ninguém quer ter macacos ou elefantes como vizinhos, não é?

